A confissão é um ritual que se desenrola numa relação de poder.Michel Foucault (1976)
Sobre a loucura de te escrever!
Começo essa (grande) carta, você, refletindo sobre muitos autores já terem dito que escrever é um ato de coragem! Publicar semanalmente aqui para tentar entregar um pingo (ou um mar) de coragem, conforto, descoberta, calor no peito, um caminho para sobreviver à próxima semana, a alguém é ato de loucura!
E caso você não me conheça suficientemente bem, começo te contando que a loucura como modo de viver destoante do que é o padrão social, do ideal, da ordem e dos bons costumes, é coisinha que me agrada, cutuca, que me puxa (será por isso a necessidade de a essa altura da vida estudar psicologia também?).
Talvez você se assuste (ou nem tanto), mas a loucura tal qual temos hoje é pura invenção do século XVII. Antes disso, existiam aqueles com sofrimento psíquico, mas de modo geral isso não era uma questão pública e tampouco eram tidos como desviantes. O louco efetivamente surge com a necessidade do estado de ordem e gestão (leia "História da Loucura na Idade Clássica", de Michel Foucault, se quiser saber mais dessa viagem). E nessa categoria estão os rebeldes, os esbanjadores, os pobres incapazes, as prostitutas, e todos aqueles que, de alguma forma, ameaçassem a ordem social.
Seria você uma pessoa dotada de alguma loucura e, com isso, com o advento dos hospitais psiquiátricos, alguém digno à época da reclusão para o bem-estar social?
Ou ainda alguém que angustie no cotidiano pela incapacidade de poder ser do corpo para fora aquilo que, em algum lugar aí dentro, se inconforma com o modo de vida ao seu redor?
E esse primeiro texto é sobre o que e como me encontro na escrita, para que, ao me ler, saiba o que está vazando de mim para você. Escrevo por prazer. Por catarse. Para tentar encontrar aquilo que somente raras conversas com pessoas também raras me proporcionam. Escrevo para ser o louco que nem sempre posso ser. E também para ser um tanto são, e entregar ao sistema aquilo que ele me pede e que paga meus boletos. Escrevo na corda bamba. Aliás, escrevo no slackline: me equilibrando, desequilibrando, mas sobretudo, me divertindo. Sentindo prazeres que, em maior parte do tempo, nem meu próprio consciente (acontece assim com você também!) permite ao meu inconsciente viver (papo para outro texto).
Outro dia, durante minhas sessões de tentativa de coragem durante os exercícios da academia, ouvi Vera Iaconelli contar à Ana Suy sobre a escrita do seu livro "Análise" (que eu chamaria de autobiografia memorialística de sentimentos): escrever é uma coisa, publicar é outra. O papel nem sempre aceita a versão que temos da realidade. Porque uma memória é apenas a vista de um ponto, e ao cruzar com os mesmos personagens que viveram aquele momento, encontramos com a queda do que achávamos ser real. Do que achávamos ser nós.
Então também escrevo para me desencontrar (não confundir com fugir) do que acho que sou para poder ser aquilo que caminho para um dia ser e, com isso, deixo de carregar as certezas vazias que pesam como bússola dos meus dias. Ainda que parte disso doa, exercitar a vida e os músculos dói primeiro, mas proporciona também o prazer do crescimento.
— Jota
Uber em Portugal a caminho do aeroporto e minha curiosidade que nunca me deixa quieto!
Mostra · Eu disse: que chaveiro lindo!
Esconde · Ele responde: foi meu filho quem fez para mim! E para nós foi uma grande vitória. Ele tem autismo!
Diz sem dizer · Quebro o protocolo já na primeira edição: preciso explicar?
Quando a IA aprende a hackear a si mesma
Para saber onde uma parede cede, alguém precisa bater nela primeiro. A lógica é velha em segurança: você não descobre a falha esperando o inimigo, você contrata o inimigo. O que muda agora é que o inimigo e o guarda são a mesma máquina, treinada para atacar a própria casa até não encontrar mais fresta.
A OpenAI batizou essa máquina de GPT-Red e a colocou para jogar contra si mesma. De self-play em self-play, os ataques que furavam o GPT-5.6 caíram de mais de 90% para menos de 23%, inclusive contra o truque de simular uma cadeia de raciocínio inocente para esconder a intenção real, a tal "fake chain of thought". O relato está na MIT Technology Review.
Nos dois polos do eixo mora a mesma verdade desconfortável. De um lado, um sistema que se torna mais seguro porque aprendeu a ser um adversário competente. Do outro, um adversário competente que a empresa agora sabe construir e escalar. A defesa que criamos é o mapa exato de como nos derrubar.
O que isso muda no que faço amanhã? Antes de confiar numa ferramenta porque ela "passou nos testes", pergunte quem escreveu os testes e o que eles tinham a ganhar com o resultado.
Polo A
A vida virou prancheta. Sistemas de inteligência artificial já desenham edições de CRISPR, a técnica que corta e reescreve o DNA como quem edita um texto, e chegam a resultados que a evolução levou milhões de anos para lapidar. Projetam proteínas que a natureza nunca chegou a tentar.
Polo B
A vida continua matéria bruta. Em cinco anos, 573 pessoas foram resgatadas de trabalho análogo à escravidão em pedreiras e obras de pavimentação do Nordeste, quebrando pedra com o corpo, segundo o Nexo.
O futuro chega desigual. Aparece primeiro nos laboratórios que reescrevem o código da vida e leva décadas para alcançar a pedreira, se alcançar. No intervalo entre um polo e outro, a conta de quem ficou para trás continua sendo paga com o único capital que restou a essas pessoas: o próprio corpo.
tecnologia de si
A gente acha que cuidar de si é gesto íntimo, coisa só nossa. Michel Foucault chamou de tecnologias de si as práticas pelas quais alguém opera sobre o próprio corpo, pensamento e conduta para virar algo que considera melhor. A confissão ao padre foi uma delas. A escrita num diário, outra. O ponto que o artigo do IHU sobre As Confissões da Carne recupera é que essas práticas nunca são só suas: vêm com um manual, escrito por uma igreja, um Estado, um mercado.
Hoje o manual roda num aplicativo. O relógio que conta passos, o app que mede o sono, o diário que agora responde com uma IA do outro lado, cada um pede que você registre, meça, confesse. A tecnologia de si segue ali, só que a instituição que recebe a confissão virou uma empresa, e o que você diz sobre si vira dado antes de virar autoconhecimento.
Quando o exame de consciência tem tela e notificação, convém lembrar quem lê o caderno.
exemplo: abrir o app de meditação às onze da noite só para registrar que hoje, de novo, não deu tempo de meditar.
Por que as pessoas querem sempre a resposta quando oferecemos o caminho para que elas elaborem sozinhas suas próprias conclusões?
O que está te atravessando esta semana e você ainda não nomeou?
Tem algo te atravessando esta semana e você não sabe onde colocar? Manda pra mim, de forma anônima. Leio tudo e devolvo, no domingo seguinte, em uma frase.
Mandar agora →573 resgatados de escravidão em pedreiras no Nordeste
Os números por trás de um trabalho que a lei chama de análogo à escravidão e que segue acontecendo a poucos quilômetros de onde você mora. Quem fiscaliza, quem paga e quem some da conta.
NexoComo falar com crianças sobre ter duas mães ou dois pais
Um guia curto e prático para conversas que muita gente adia por não saber por onde começar. Serve para pais, para tios e para quem vai encontrar essas crianças no recreio.
NexoMichel Foucault: a engenharia do ódio social
Como o ódio deixa de ser explosão espontânea e vira coisa fabricada, dosada e distribuída. Foucault de novo, agora para entender por que a raiva do vizinho parece sempre apontar para baixo, nunca para cima.
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Começam as convenções partidárias
Os partidos se reúnem para escolher quem vai disputar as eleições de 2026. É o momento em que a promessa vira nome na urna.
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Data de resistência ligada a Tereza de Benguela; pauta de desigualdade racial e de gênero no país.
Estreia "Vingadores: Doomsday"
A Marvel volta às telas com o capítulo que promete fechar uma era. Bom termômetro de quanto público ainda responde ao chamado do blockbuster.
IPCA-15 e PNAD
O IBGE divulga a prévia da inflação e o retrato do emprego. Dois números que traduzem em dado a pergunta de todo mês: dá para chegar ao fim dele?
Se uma máquina já projeta a vida melhor do que a evolução, o que você ainda faz questão de fazer com as próprias mãos?
Responder em uma frase →
Jota
Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO!
Esta edição foi enviada da cama, num domingo de céu plenamente azul, com o barulho de ondas de águas cristalinas quebrando nas pedras de forma incansavelmente poética. Boa segunda.
