oCamino
edição 002 · carta de domingo26 de julho de 2026

Acumular conhecimento te torna mais o quê?

A semana em que aquilo que é humano virou o ativo mais caro da economia de IA, o preço da sua fatura passou a ser calculado por algoritmo, e o cansaço se firmou como a doença de fundo de quem sabe demais para conseguir descansar.

01Carta de domingo

Acumular conhecimento te torna mais o quê?

Quando você é apaixonado por se aprofundar, do audiovisual à Inteligência de Dados, IA, Criptomoedas... passando por culinária, gestão, viagens, poesia e terminando em antropologia, psicologia e saberes empíricos.

Semana passada, jantando com um casal de amigos (que entregam tudo na cozinha e nas filosofias), conversávamos sobre futuro pessoal, profissional, sobre mercado capixaba e sobre como, às vezes, saber mais profundamente algo, só nos isola de nos conectarmos com àqueles que, de alguma forma, estão vivendo "normalmente" dias presentes, sem olhar tanto para o amanhã ou buscando explicações críticas sobre "como eu vim parar aqui".

Me vejo quase sempre incompreendido quanto tento explicar aquilo que claramente enxergo à minha frente. Não raras vezes, as pessoas fazem um sorriso amarelo dizendo "aaaaah ta, agora entendi", e quando peço "então me explica?", o sorrisinho virava gargalhada e um "ah não, aí é diferente... eu entendi para mim". Será que existe isso?

E isso não é um julgamento ou uma subvalorização do saber do outro. Como bom profundo autocrítico que sou, acredito que o problema é comunicacional meu (e sigo no meu PDI interno, sempre investindo na skill "tradutor da visão do Jota").

O próprio lançamento do oCamino, por onde talvez você tenha chegado a essa newsletter, diga sobre isso. Reuni pessoas queridas em minha trajetória para compartilhar inquietações cotidianas, momento de vida e buscar entregar um respiro, um alerta de que dias difíceis se formam no horizonte. Com a hipervigilância, algoritmos, com a "Sociedade do Cansaço e da Performance", em que mesmo o descanso, o lazer e a descompressão viraram sinônimo de produtividade.

Havia um slide "Isso não é um encontro profissional" e houve quem saísse sem entender: você quer fazer negócios comigo? Quer me vender o quê? - A resposta seria: um olhar crítico que talvez te livre de viver dias que só mudam de nome (como bem canta Emicida), sem nenhuma novidade.

Refletindo depois, me peguei pensando: claro! Quem reune pessoas para filosofar em pleno 2026, sem buscar nada em troca? O Jota!

Minha tentativa é de criar, fora de mim, os tantos mundos que existem aqui dentro. E isso envolve desde repensar cotidianos a modos de vida, ou poder discutir em profundidade sobre como o tempo de qualidade é o novo artigo de luxo, contrapondo a lógica da produtividade proposta pelo mercado. E que o Brasil ser a segunda reserva mundial dos insumos mais valiosos para o advento das tecnologias, não o faz ser potencialmente diferente do que é hoje ao tratar terras raras como terra. Diferente da China que em 20 anos saiu de país ultra subdesenvolvido para superpotência, exportadora mundial de inteligência de produção e desenvolvimento.

Acho que, no fim, a gente só quer existir. E para isso, queremos que os outros existam também. No meu caso, para além da carne e osso. Existir no pensar crítico, no romper as bolhas, no existir em modo Beta (versão de teste).

Quem mandou gostar de tanta coisa e não saber parar na beira do mar?

O mergulho conjunto é só para quem quer nadar. Mergulha comigo, você?

Me comprometo a continuar tentando te traduzir o mundo que vejo com as minhas lentes, para que juntos, sejamos mais fortes que isolados.

02Imagem da semana

Um beijo espontaneamente romântico?

 
Casal apaixonado se beijando enquanto amigo faz hang loose rindo.
Organizando as fotos da viagem (que são infinitas), mais uma com história...

Mostra · Um beijo mais que apaixonado em uma tarde de Copenhague!

Esconde · Que eu estava tirando fotos do prédio e das pessoas ao redor, distraídas. Então o moço, ao me ver, se atracou em beijos com sua companheira.

Diz sem dizer · Que o espírito da foto foi "me clica, eu te entrego entretenimento", sem uma palavra trocada. No último clique da sequência, os três terminaram numa pose tal qual o colega que ficou de vela. Eles nunca verão essa foto!

 
Manda pra mim · anônimo

Me manda o que você não consegue dizer em voz alta por aí

Tem algo te atravessando esta semana e você não sabe onde colocar? Manda pra mim, de forma anônima. Leio e devolvo o que me despertou no domingo que vem.

Mandar agora →
 
Comentei pra você · devolutiva

Li, senti e tentei responder aqui...

Toda semana, escolho uma mensagem que vocês me enviaram e respondo por aqui. Nessa edição não consegui decidir por uma apenas, então respondi duas delas.

Você me mandou

“Minha relação com a escrita.
E, curiosamente (coincidência?), esse foi o tema inicial da sua carta para mim. Sim, eu senti que foi pra mim… me explico abaixo!
Hoje eu -literalmente- sonhei com a escrita. As minhas primeiras palavras do dia, ainda me despertando na cama de manhã, foram: “Amor, um dia eu vou escrever um livro.”
Meu cônjuge sorriu e me trouxe ideias de como eu poderia começar agora, utilizar AI, transformar esse “um dia” em presente real e não futuro distante.
Na mesma hora, a sugestão me soou como ofensa e pensei “Usar AI pra escrever??? Não!!!”. Prontamente respondi: “Não! Vou fazer isso quando tiver tempo, quando não estiver trabalhando no ritmo de hoje”.
E durante todo dia, esse pensamento ressoou… Por que eu sonhei com a escrita? O que eu sonhei? Escrever é um sonho? É um desejo?
E agora, lendo o seu texto e experienciando sentimentos múltiplos, o insight que eu tive é que escrever é uma necessidade. Será???
Ainda não tive coragem (?) de nomear.”

Eu respondo

A função do sonho é realizar simbolicamente desejos que não conseguimos sustentar acordados. Em contrapartida, desejos nunca se realizam no campo da realidade (pela ótica da psicanálise). Te pergunto: escrever é nomear e encontrar o que te impede efetivamente de escrever, ou reconhecer o quanto esse desejo (da escrita ou do livro) te torna mais viva?
Pitaco: não delegue à IA aquilo que só você sente (nem a treine com isso)! Você continuará com a necessidade de escrever se ela o fizer por você.
P.S.: Adoro tanta coisa do que você escreveu que daria um podcast sobre psicanálise, IA e cultura da produtividade!

Você me mandou

“Não consigo mais aproveitar um momento sem pensar em registrar com o celular ou postar. Estou num exercício constante mas é difícil. Sinto que não tô vivendo nada mais de verdade ou por inteiro. Fico pensando que isso também é um tipo de "confissão" e as redes sociais (quem vê o que eu posto) ocupam essa posição de poder, como se eu precisasse dar satisfação. Li em algum lugar sobre como a nossa forma de absorver, sentir, significar as coisas (para nós mesmos) mudou e agora envolve um registro com um celular. Mesmo que seja uma foto que não vou nunca mais abrir. Tô incomodada.”

Eu respondo

Pode responder com perguntas?
"Sinto que não tô vivendo nada mais de verdade ou por inteiro": você já sentiu que viveu o oposto disso? Como era? Conseguimos resgatar esse "lugar"?
Sua sensação de "não viver nada por inteiro" e a urgência de registrar tudo com o celular me lembram o esgotamento que o filósofo Byung-Chul Han chama de "Sociedade do Cansaço" (livrinho pequeno, vale a leitura).
Sem perceber, fomos transformados em empresários e vigilantes de nós mesmos. A vida perde o "sabor" porque a experiência imediata é sacrificada em nome de uma performance contínua para as telas.
Já experimentou trocar com amigos, amores, colegas, sobre seu isso? (spoiler: acho que você não tá só)
Se a maior parte do tempo (no trabalho, por exemplo) você passar diante de uma tela (que seja a do notebook), é pouco provável que no restante dos espaços "desligar" o modo tela seja fácil.
O erro não tá em você!
Agora, talvez o ponto também possa ser sobre "por que me incomoda registrar" ou "publicar"?
Achei isso hoje pela manhã e lembrei de você.
Me chama pra um café!

03oCamino para fugir do fim do mundo

O genuinamente humano virou o bem mais caro da economia de IA

A inteligência ficou barata nesta semana. Gerar texto, resumir relatório, cruzar planilha, montar parecer: tudo isso caiu de preço até virar commodity que qualquer um baixa de graça.

E desde que o tempo é tempo, quando o que era escasso vira abundante, o valor sobrevive e troca de endereço. Aqui, ele foi morar no único ponto que a máquina não alcança (ainda), o gesto humano que assume risco, o juízo que assina embaixo. A mão que decide com subjetividade quando o dado empata.

A McKinsey deu nome de mercado ao que já se sentia na pele: o diferencial humano virou o ativo mais disputado da economia de IA, e tende a valer mais quanto mais a máquina avança sobre o resto: A vantagem humana numa economia de IA.

Anota: quanto mais barata a inteligência artificial, mais caro o pouco que não se automatiza.

Os construtores leem isso de um jeito: automatizam tudo que der, cortam o custo da decisão e depois revendem, no andar de cima, o reencontro com o humano embalado como produto premium. Quem estuda o custo lê de outro: se o humano que sobra virou ativo cobiçado, ele corre o risco de ser capturado como mais uma mercadoria, medido, precificado, etiquetado e devolvido ao dono já domesticado. Mas quanto mais repertório crítico, mais diferencial competitivo.

Sobreviver à próxima semana passa por ficar com a mão onde ela ainda decide, antes que decidam por você o preço dela. O que a máquina faz melhor, deixa com ela. O que só você sustenta, sustenta e pensa como manter isso vivo.

A pergunta prática para a próxima semana: pega uma tarefa que a máquina já faz mais rápido que você e pergunta o que sobra de você ali dentro. Esse resto é o seu ativo, e cuidar dele é cuidar do que ficou escasso.
04Convergências

O mesmo algoritmo, dois lados do balcão

Polo A

Assinantes de jornal abrem o e-mail de renovação e descobrem, na letra miúda, que o valor foi definido por um algoritmo de precificação. Sem aviso, sem rosto, um preço calculado só para aquele cliente. Este preço foi definido por um algoritmo.

×

Polo B

Do outro lado do mesmo balcão, novas regras chegam para o trabalho mediado por aplicativo e tentam devolver direito e rosto a quem entrega, dirige e vive do algoritmo que distribui a corrida. As novas regras para trabalhadores de plataforma.

Do lado do consumo, o algoritmo apaga o rosto para cobrar melhor. Do lado do trabalho, o Estado corre para obrigar o mesmo tipo de algoritmo a enxergar o rosto que ele havia apagado. A engrenagem que individualiza o preço para extrair um pouco mais de cada um é a mesma que dilui a responsabilidade sobre quem faz o serviço acontecer.

O algoritmo aprendeu a ver cada um como número na hora de cobrar e como ninguém na hora de responder. O cliente vira alvo exato, o trabalhador vira média invisível, e no meio some a única coisa que a fatura e a corrida tinham em comum: uma pessoa. A semana que vem é um bom momento para reparar em quantas decisões sobre a sua vida já saíram das mãos de alguém e entraram numa fórmula.

05Inteligência Natural · verbete

desamparo.

Substantivo masculino

A solidão que nos constitui, somada à falta de ferramentas (de dentro e de fora) frente ao que sentimos ou precisamos fazer.

Vem do alemão Hilflosigkeit, palavra que a psicanálise usa para a condição de quem chega ao mundo sem conseguir se bastar sozinho. Freud botou isso no centro da nossa entrada na vida: o bebê sente tudo e pode nada, depende de um outro que pode faltar (nenhum de nós escapou dessa), e essa condição a gente carrega, com melhores disfarces, pelo resto dos dias.

Por isso o desamparo adulto tem pouco a ver com um episódio ruim. Ele é o fundo que aparece quando a tradição, a verdade estável e o futuro previsível desmoronam juntos, e sobra o corpo, sozinho, diante do que excede suas ferramentas. A ansiedade, coitada, ao menos tem endereço: a prova, a conta, o exame. Ela visita. O desamparo mora, e de tempos em tempos abre a porta do quarto.

Sobre esse trio que anda junto, um café com a Ana Suy: Vergonha, solidão e desamparo

› Domingo à noite, a caixa de entrada cheia e nenhum lugar no corpo para pousar. Isso tem nome, e o nome é desamparo. Onde você tem encostado o seu?

06Incômodo da semana

Os coachs de inovação que escrevem artigos no LinkedIn com IA, cheios de “isso não é sobre x é sobre y”, e o mercado segue aplaudindo (mas eu sempre sei quando algo é produzido sistemicamente por IA: podem me desafiar para um teste).

07Catadotrês links que valeram o tempo
15' análise

Nexo Jornal

Por que a fome cai no mundo, mas a comida saudável fica mais cara

Vale porque vira os próprios dados de sucesso da FAO contra a narrativa de sucesso: a fome caiu no agregado, e comer bem ficou 18% mais caro para quem tem menos. Progresso que esconde regressão.

8' artigo

IHU Unisinos

Extrema direita dos EUA confirma tese de ambientalistas: desmatar dá prejuízo

Revela o momento em que o dado convence quem a ética nunca convenceu: desmatar dá prejuízo até pela régua do mercado. Boa munição para o debate ambiental que a eleição vai reacender.

15' book talk

McKinsey on Books

Author Talks: por que fundadores leem mal a demanda do cliente

Vale pelo espelho incômodo: o fundador se apaixona pela própria solução e lê errado quem deveria servir. Escuta em lugar de palpite, para quem decide num mercado que premia certeza barata.

08Cartografia da próxima semana
04 terça · agosto

Rio Innovation Week 2026

Quatro dias no Píer Mauá com IA, cidades e economia criativa no centro do palco. Bom termômetro do que o mercado vai chamar de futuro nos próximos meses.

05 quarta · agosto

Copom decide a Selic

A 280ª reunião define a taxa básica de juros sob pressão de câmbio e inflação. Mexe no crédito, no aluguel e no financiamento que você sente no fim do mês.

11 terça · agosto

IPCA de julho, pelo IBGE

O IBGE divulga a inflação oficial de julho. O número decide reajuste de aluguel e dá o tom da conversa sobre custo de vida que a eleição vai capturar.

16 domingo · agosto

Começa a propaganda eleitoral

Abre a propaganda eleitoral geral, inclusive na internet. Daí em diante, mais ruído, mais desinformação e mais pressão sobre as plataformas.

Foto do autor

Quem escreve & cura

Jota

Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO!

contato@ocamino.cc  ·  oCamino · Vitória, ES

Essa edição foi escrita durante a semana... finalizei metade pela manhã, antes de uma aula de spinning, e a outra metade pós-almoço, no silêncio da minha sala, olhando para o prédio em construção aqui em frente. Boa semana!

oCamino

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