“
"A liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."*Clarice Lispector · A Paixão Segundo G.H. (1964)*
| 01 | Carta de domingo |
Acumular conhecimento te torna mais o quê?
![]() |
| Quando você é apaixonado por se aprofundar, do audiovisual à Inteligência de Dados, IA, Criptomoedas... passando por culinária, gestão, viagens, poesia e terminando em antropologia, psicologia e saberes empíricos. |
Semana passada, jantando com um casal de amigos (que entregam tudo na cozinha e nas filosofias), conversávamos sobre futuro pessoal, profissional, sobre mercado capixaba e sobre como, às vezes, saber mais profundamente algo, só nos isola de nos conectarmos com àqueles que, de alguma forma, estão vivendo "normalmente" dias presentes, sem olhar tanto para o amanhã ou buscando explicações críticas sobre "como eu vim parar aqui".
Me vejo quase sempre incompreendido quanto tento explicar aquilo que claramente enxergo à minha frente. Não raras vezes, as pessoas fazem um sorriso amarelo dizendo "aaaaah ta, agora entendi", e quando peço "então me explica?", o sorrisinho virava gargalhada e um "ah não, aí é diferente... eu entendi para mim". Será que existe isso?
E isso não é um julgamento ou uma subvalorização do saber do outro. Como bom profundo autocrítico que sou, acredito que o problema é comunicacional meu (e sigo no meu PDI interno, sempre investindo na skill "tradutor da visão do Jota").
O próprio lançamento do oCamino, por onde talvez você tenha chegado a essa newsletter, diga sobre isso. Reuni pessoas queridas em minha trajetória para compartilhar inquietações cotidianas, momento de vida e buscar entregar um respiro, um alerta de que dias difíceis se formam no horizonte. Com a hipervigilância, algoritmos, com a "Sociedade do Cansaço e da Performance", em que mesmo o descanso, o lazer e a descompressão viraram sinônimo de produtividade.
Havia um slide "Isso não é um encontro profissional" e houve quem saísse sem entender: você quer fazer negócios comigo? Quer me vender o quê? - A resposta seria: um olhar crítico que talvez te livre de viver dias que só mudam de nome (como bem canta Emicida), sem nenhuma novidade.
Refletindo depois, me peguei pensando: claro! Quem reune pessoas para filosofar em pleno 2026, sem buscar nada em troca? O Jota!
Minha tentativa é de criar, fora de mim, os tantos mundos que existem aqui dentro. E isso envolve desde repensar cotidianos a modos de vida, ou poder discutir em profundidade sobre como o tempo de qualidade é o novo artigo de luxo, contrapondo a lógica da produtividade proposta pelo mercado. E que o Brasil ser a segunda reserva mundial dos insumos mais valiosos para o advento das tecnologias, não o faz ser potencialmente diferente do que é hoje ao tratar terras raras como terra. Diferente da China que em 20 anos saiu de país ultra subdesenvolvido para superpotência, exportadora mundial de inteligência de produção e desenvolvimento.
Acho que, no fim, a gente só quer existir. E para isso, queremos que os outros existam também. No meu caso, para além da carne e osso. Existir no pensar crítico, no romper as bolhas, no existir em modo Beta (versão de teste).
Quem mandou gostar de tanta coisa e não saber parar na beira do mar?
O mergulho conjunto é só para quem quer nadar. Mergulha comigo, você?
Me comprometo a continuar tentando te traduzir o mundo que vejo com as minhas lentes, para que juntos, sejamos mais fortes que isolados.
| 02 | Imagem da semana |
Um beijo espontaneamente romântico?
|
| Organizando as fotos da viagem (que são infinitas), mais uma com história... |
Mostra · Um beijo mais que apaixonado em uma tarde de Copenhague!
Esconde · Que eu estava tirando fotos do prédio e das pessoas ao redor, distraídas. Então o moço, ao me ver, se atracou em beijos com sua companheira.
Diz sem dizer · Que o espírito da foto foi "me clica, eu te entrego entretenimento", sem uma palavra trocada. No último clique da sequência, os três terminaram numa pose tal qual o colega que ficou de vela. Eles nunca verão essa foto!
Me manda o que você não consegue dizer em voz alta por aíTem algo te atravessando esta semana e você não sabe onde colocar? Manda pra mim, de forma anônima. Leio e devolvo o que me despertou no domingo que vem.
|
Li, senti e tentei responder aqui...Toda semana, escolho uma mensagem que vocês me enviaram e respondo por aqui. Nessa edição não consegui decidir por uma apenas, então respondi duas delas.
|
| 03 | oCamino para fugir do fim do mundo |
O genuinamente humano virou o bem mais caro da economia de IA
A inteligência ficou barata nesta semana. Gerar texto, resumir relatório, cruzar planilha, montar parecer: tudo isso caiu de preço até virar commodity que qualquer um baixa de graça.
E desde que o tempo é tempo, quando o que era escasso vira abundante, o valor sobrevive e troca de endereço. Aqui, ele foi morar no único ponto que a máquina não alcança (ainda), o gesto humano que assume risco, o juízo que assina embaixo. A mão que decide com subjetividade quando o dado empata.
A McKinsey deu nome de mercado ao que já se sentia na pele: o diferencial humano virou o ativo mais disputado da economia de IA, e tende a valer mais quanto mais a máquina avança sobre o resto: A vantagem humana numa economia de IA.
Anota: quanto mais barata a inteligência artificial, mais caro o pouco que não se automatiza.
Os construtores leem isso de um jeito: automatizam tudo que der, cortam o custo da decisão e depois revendem, no andar de cima, o reencontro com o humano embalado como produto premium. Quem estuda o custo lê de outro: se o humano que sobra virou ativo cobiçado, ele corre o risco de ser capturado como mais uma mercadoria, medido, precificado, etiquetado e devolvido ao dono já domesticado. Mas quanto mais repertório crítico, mais diferencial competitivo.
Sobreviver à próxima semana passa por ficar com a mão onde ela ainda decide, antes que decidam por você o preço dela. O que a máquina faz melhor, deixa com ela. O que só você sustenta, sustenta e pensa como manter isso vivo.
| A pergunta prática para a próxima semana: pega uma tarefa que a máquina já faz mais rápido que você e pergunta o que sobra de você ali dentro. Esse resto é o seu ativo, e cuidar dele é cuidar do que ficou escasso. |
| 04 | Convergências |
O mesmo algoritmo, dois lados do balcão
|
Polo A Assinantes de jornal abrem o e-mail de renovação e descobrem, na letra miúda, que o valor foi definido por um algoritmo de precificação. Sem aviso, sem rosto, um preço calculado só para aquele cliente. Este preço foi definido por um algoritmo. |
Polo B Do outro lado do mesmo balcão, novas regras chegam para o trabalho mediado por aplicativo e tentam devolver direito e rosto a quem entrega, dirige e vive do algoritmo que distribui a corrida. As novas regras para trabalhadores de plataforma. |
Do lado do consumo, o algoritmo apaga o rosto para cobrar melhor. Do lado do trabalho, o Estado corre para obrigar o mesmo tipo de algoritmo a enxergar o rosto que ele havia apagado. A engrenagem que individualiza o preço para extrair um pouco mais de cada um é a mesma que dilui a responsabilidade sobre quem faz o serviço acontecer.
O algoritmo aprendeu a ver cada um como número na hora de cobrar e como ninguém na hora de responder. O cliente vira alvo exato, o trabalhador vira média invisível, e no meio some a única coisa que a fatura e a corrida tinham em comum: uma pessoa. A semana que vem é um bom momento para reparar em quantas decisões sobre a sua vida já saíram das mãos de alguém e entraram numa fórmula.
| 05 | Inteligência Natural · verbete |
desamparo.
Substantivo masculino
A solidão que nos constitui, somada à falta de ferramentas (de dentro e de fora) frente ao que sentimos ou precisamos fazer.
Vem do alemão Hilflosigkeit, palavra que a psicanálise usa para a condição de quem chega ao mundo sem conseguir se bastar sozinho. Freud botou isso no centro da nossa entrada na vida: o bebê sente tudo e pode nada, depende de um outro que pode faltar (nenhum de nós escapou dessa), e essa condição a gente carrega, com melhores disfarces, pelo resto dos dias.
Por isso o desamparo adulto tem pouco a ver com um episódio ruim. Ele é o fundo que aparece quando a tradição, a verdade estável e o futuro previsível desmoronam juntos, e sobra o corpo, sozinho, diante do que excede suas ferramentas. A ansiedade, coitada, ao menos tem endereço: a prova, a conta, o exame. Ela visita. O desamparo mora, e de tempos em tempos abre a porta do quarto.
Sobre esse trio que anda junto, um café com a Ana Suy: Vergonha, solidão e desamparo
› Domingo à noite, a caixa de entrada cheia e nenhum lugar no corpo para pousar. Isso tem nome, e o nome é desamparo. Onde você tem encostado o seu?
| 06 | Incômodo da semana |
Os coachs de inovação que escrevem artigos no LinkedIn com IA, cheios de “isso não é sobre x é sobre y”, e o mercado segue aplaudindo (mas eu sempre sei quando algo é produzido sistemicamente por IA: podem me desafiar para um teste).
| 07 | Catadotrês links que valeram o tempo |
| 15' análise |
Nexo Jornal Por que a fome cai no mundo, mas a comida saudável fica mais caraVale porque vira os próprios dados de sucesso da FAO contra a narrativa de sucesso: a fome caiu no agregado, e comer bem ficou 18% mais caro para quem tem menos. Progresso que esconde regressão. |
| 8' artigo |
IHU Unisinos Extrema direita dos EUA confirma tese de ambientalistas: desmatar dá prejuízoRevela o momento em que o dado convence quem a ética nunca convenceu: desmatar dá prejuízo até pela régua do mercado. Boa munição para o debate ambiental que a eleição vai reacender. |
| 15' book talk |
McKinsey on Books Author Talks: por que fundadores leem mal a demanda do clienteVale pelo espelho incômodo: o fundador se apaixona pela própria solução e lê errado quem deveria servir. Escuta em lugar de palpite, para quem decide num mercado que premia certeza barata. |
| 08 | Cartografia da próxima semana |
|
04 terça · agosto
Rio Innovation Week 2026Quatro dias no Píer Mauá com IA, cidades e economia criativa no centro do palco. Bom termômetro do que o mercado vai chamar de futuro nos próximos meses. |
05 quarta · agosto
Copom decide a SelicA 280ª reunião define a taxa básica de juros sob pressão de câmbio e inflação. Mexe no crédito, no aluguel e no financiamento que você sente no fim do mês. |
|
11 terça · agosto
IPCA de julho, pelo IBGEO IBGE divulga a inflação oficial de julho. O número decide reajuste de aluguel e dá o tom da conversa sobre custo de vida que a eleição vai capturar. |
16 domingo · agosto
Começa a propaganda eleitoralAbre a propaganda eleitoral geral, inclusive na internet. Daí em diante, mais ruído, mais desinformação e mais pressão sobre as plataformas. |
|
Quem escreve & cura Jota Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO! contato@ocamino.cc · oCamino · Vitória, ES |
Essa edição foi escrita durante a semana... finalizei metade pela manhã, antes de uma aula de spinning, e a outra metade pós-almoço, no silêncio da minha sala, olhando para o prédio em construção aqui em frente. Boa semana!


