oCamino
edição 004 · carta de domingo9 de agosto de 2026

Os círculos que tentam humanizar a inteligência artificial

Os círculos presenciais que tentam humanizar a IA, uma economia que cresce dispensando gente, o metro quadrado mais caro do país e o que a gente transmite sem querer transmitir.

01oCamino para fugir do fim do mundo

Cadeiras em círculo para falar de máquina

Quase todo debate sobre inteligência artificial acontece dentro do mesmo lugar que ele está tentando julgar. A crítica à plataforma sai publicada na plataforma. O texto sobre distração compete com notificação. O algoritmo decide quem lê a reclamação sobre o algoritmo. O formato entrega o resultado antes de a conversa começar: cada um sai com a posição com que entrou, só que mais firme e mais sozinho.

Por isso me interessou ver gente voltando para a sala. Sala mesmo, com cadeira, café ruim e ninguém gravando.

De um lado senta quem constrói. Passa o dia dentro do problema técnico e, justamente por passar o dia lá dentro, enxerga capacidade onde os outros enxergam ameaça. Tem uma vantagem real: sabe o que a máquina faz e sabe o que ela finge fazer, o que já elimina metade do pânico de internet. E carrega um ponto cego do mesmo tamanho, porque quem constrói quase nunca é quem apanha.

Do outro lado senta quem apanha. Professora que recebe redação escrita por robô, ilustrador que perdeu três clientes fixos, atendente cuja ligação virou material de treino. Essa turma sabe o preço com precisão de centavo. E tem o seu próprio ponto cego, porque dor não vira análise sozinha, e o medo tende a achatar coisas muito diferentes numa coisa só.

A Rest of World foi atrás de encontros assim no Quênia, na Índia e nos Estados Unidos e achou uma cena parecida em contextos que não têm quase nada em comum: grupos de base organizando conversas presenciais sobre IA, fora do circuito de conferência e fora do palco. Biblioteca de bairro, sala de casa, fundo de café.

Presencialmente o argumento continua exatamente o mesmo. Muda o custo de sair da conversa. Num círculo você não bloqueia quem discorda. Você espera a pessoa terminar a frase, vê ela hesitar no meio, percebe que ela também não tem certeza de nada. Essa hesitação é a informação mais útil da noite, e ela some por completo no texto escrito.

O que isso muda no que faço amanhã? Marque uma dessas conversas para esta semana com três pessoas que trabalham em áreas diferentes da sua. Uma pergunta só: o que a máquina já mudou no seu trabalho nos últimos trinta dias, na prática, sem futurologia. Uma hora, sem tela em cima da mesa. Você sai com mais informação do que juntou em seis meses de timeline.
02Imagem da semana

Um pai parado diante do Palácio de Buckingham

 
Cliquei em Londres, em novembro do ano passado. Ele nunca verá essa foto.

Mostra · Um homem de olheiras honestas com um bebê dormindo no canguru, parado no meio da multidão que visita o palácio numa manhã fria de Londres.

Esconde · A madrugada que o levou ali. Quantas voltas ele deu até o sono chegar, onde está o resto da família, há quanto tempo ele mesmo dorme uma noite inteira. Seria ele uma exceção de companheirismo à maternidade?

Diz sem dizer · Que ao redor todo mundo segurava um celular, e ele segurava uma pessoa. A realeza mora atrás daquele portão dourado, mas o herdeiro mais importante da foto respira no peito dele. Feliz Dia dos Pais para quem carrega o futuro na frente do corpo (e as costas que aguentem).

03Incômodo da semana

Vitória virou o metro quadrado mais caro do Brasil e a cidade comemorou como se todo mundo coubesse na notícia.

Teve "influenciador" de negócios nos chamando de Mônaco. (?!?)

Mas só o preço chegou lá. A mentalidade segue presa no interior de si mesma. Pagar de principado com cabeça de província é o nosso novo esporte a motor.

Valorizou para quem?

Quem conseguirá ficar?

O investimento tá valendo o retorno ou é só cosplay de conglomerado de investimento de fachada?

 
Manda pra mim · anônimo

Me manda algo que podemos dar nome juntos!

Tem algo te atravessando esta semana e você não sabe onde colocar? Manda pra mim, de forma anônima. Leio tudo e devolvo, no domingo seguinte.

Mandar agora →
 
Comentei pra você · devolutiva

Li, senti e tentei responder aqui...

Toda semana, escolho uma mensagem que vocês me enviaram e respondo por aqui.

Você me mandou

“Eu, eu ainda não me nomeei. Pois quem sou eu? Sou o objeto ou o sujeito das minhas relações? Sou aquilo que produzo a partir da lógica capitalista? o que venho refletindo é a maneira como nos vemos (colocar no plural pq fica mais fácil do que falar "como ME vejo"), e como tem sido mais fácil a gente se ver a partir de uma lógica capitalista (muitas vezes elitista) e patológica. Eu sou professor, eu sou empresário, eu sou médico, eu sou autista, eu sou bipolar... ... nós só somos nós, e isso quer dizer: já que sou, o jeito é ser. E com isso, cheio de vazios, faltas e desejos.”

Eu respondo

Na filosofia clássica de Descartes, teríamos "Penso, logo existo". Lacan, relendo Freud, inverte a lógica: "Penso onde não sou, portanto sou onde não penso".

Concordo contigo quando traz Clarice e os vazios e diria mais: que somos inomeáveis. Estamos em cargos, posições, somos sujeitos, sujeitados e sujeitantes das relações. Ainda assim não somos. Caso contrário, ao perder tais posições (de professor, empresário, doente)... perderíamos a nossa existência? Perderíamos o todo de nós? O que somos quando perdemos o cargo?

Acredito profundamente que somos aquilo que ainda não sabemos que somos e num processo de relação com a vida, nunca saberemos plenamente. Somos os vazios que nos puxam para sermos algo.

04Convergências

Crescer sem trabalhar, amar sem poder perder

Polo A

A Rest of World publicou nesta semana um panorama sobre economias que crescem enquanto dispensam trabalho humano. O indicador sobe, o emprego não acompanha. É um descolamento que a gente já tinha visto acontecer setor por setor e que agora aparece espalhado, ao mesmo tempo, em lugares muito distantes entre si.

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Polo B

No mesmo mês volta à mesa a tese que Hannah Arendt escreveu aos vinte e poucos anos sobre o conceito de amor em Santo Agostinho, e ela vem com uma frase que atravessa: tal é cada um quanto é o seu amor. Você é feito daquilo que escolhe amar. E como tudo que se ama é perecível, amar já vem com o medo de perder embutido no preço.

Síntese

Coloque os dois no mesmo domingo, que é Dia dos Pais, e a abstração aterrissa rápido.

Boa parte da geração dos nossos pais foi criada com uma régua só: o homem vale o que ele sustenta. Provedor era substantivo e era identidade, e ninguém achava isso estranho. Se a economia caminha para dispensar o trabalho humano, essa régua quebra. E ela quebra primeiro, e mais fundo, na cabeça de quem foi formado por ela e nunca teve outra à mão.

Arendt oferece uma segunda régua, que por acaso é mais velha que a primeira. Você é aquilo que você ama. Faça o teste: pergunte a qualquer pessoa o que o pai dela amava. Ninguém responde com salário. Responde com time, com música alta na cozinha no sábado de manhã, com a mesma história contada pela vigésima vez, com uma teimosia muito específica sobre o jeito certo de fazer café. A régua do amor sobrevive ao fim do emprego. A régua do provedor vai junto com ele.

O preço vem no mesmo pacote, e Arendt não esconde: amar coisa perecível é assinar embaixo da perda. Quem ligou para o pai hoje sabe disso de um jeito. Quem hoje não teve para quem ligar sabe de outro, mais exato.

05Inteligência Natural · verbete

transmissão.

*substantivo feminino*

O que passa de uma geração para a outra sem que ninguém tenha decidido passar. Fica de fora da herança, do testamento e do conselho de pai. Cabe no jeito de segurar o garfo, no medo específico de dever dinheiro, no silêncio que cai na mesa quando alguém levanta a voz, na mania de conferir a porta duas vezes antes de dormir. Costuma ser descoberta tarde, num flagrante, geralmente por um terceiro que comenta a semelhança em voz alta.

Frase de uso · "Ninguém me ensinou a fazer assim. Isso aí foi transmissão."

Origem · Do latim transmittere, de trans- (além, através) mais mittere (enviar, lançar). Enviar além. Fazer passar adiante. A palavra já carrega no corpo a ideia de uma coisa que sai de um lugar e chega em outro sem parar no meio do caminho para pedir licença.

A psicanálise dá nome ao lado organizador disso: a função paterna separa para incluir. O limite que aparece como corte é o mesmo que abre lugar. Vale para pai, e vale para quem faz esse papel sem ter o cargo.

Pergunta · Qual foi a última coisa que você fez exatamente igual ao seu pai sem perceber que estava fazendo?

06Catadotrês links que valeram o tempo
4 min conversa aberta

Núcleo Jornalismo · 03/08

O que você faz para ficar longe das telas?

Os leitores respondem, e as respostas são pequenas, domésticas e checáveis. Vale o clique porque é gente comum contando o que funcionou de verdade, sem consultor de bem-estar digital vendendo método de doze passos. Leia procurando uma tática só, uma que caiba na sua terça-feira sem virar projeto.

5 min poema comentado

The Marginalian · 06/08

Como segurar aquilo que te dilacera

O poema é "Harrowing", de Maggie Smith, e a palavra é o melhor da leitura. To harrow é lavrar a terra revolvendo o solo, e o mesmo verbo virou adjetivo para aquilo que dilacera por dentro. Revirar para dilacerar e revirar para plantar são o mesmo movimento, o que explica bastante coisa sobre semana difícil.

8 a 10 min ensaio

The Marginalian · 08/08

Arendt sobre o amor e o medo de perder

É a fonte da epígrafe lá em cima, inteira. A tese que Arendt tira de Agostinho: o amor produz medo porque só se ama aquilo que pode acabar. Guarde para uma hora calma, porque o texto mexe fundo com quem tem alguém doente em casa.

07Cartografia da próxima semana
em cartaz 9 ago a 18 out

A inteligência artificial pode ajudar a salvar e proteger a natureza?

Abre hoje no MAMAM, no Recife, com entrada gratuita e artistas de onze países premiados na 20ª edição do Arte Laguna Prize, em Veneza. A pergunta do título é o assunto desta edição entrando por outra porta: o que a máquina faz com aquilo que é vivo e perecível.

11 terça · agosto

IPCA de julho, pelo IBGE

Sai às 9h. É o número que decide o preço do almoço de domingo do mês que vem, então serve para quem faz conta de casa e para quem faz conta de empresa. Vale olhar o dado direto na fonte antes de ler a manchete que alguém escreveu sobre ele.

12 a 22 agosto

54º Festival de Cinema de Gramado

A abertura é em 14/08 com "Antártida", de Bruno Safadi. Na competição estão "Chorão: Só os Loucos Sabem", "Nosso Segredo", de Grace Passô, e "Leite em Pó". Três filmes sobre herança, memória e o que fica de quem foi embora, o que casa demais com a semana.

15 e 16 sábado e domingo · agosto

Jornada do Patrimônio, em São Paulo

Mais de 100 roteiros de memória em todas as regiões da cidade, sob o tema "São Paulo: cada olhar, uma história". Faz parte do Festival do Patrimônio, que corre de 8 a 16/08 com mais de 500 atrações gratuitas. É a semana inteira tratando memória urbana como patrimônio, no domingo em que a edição fala do que se transmite sem querer.

Foto do autor

Quem escreve & cura

Jota

Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO!

contato@ocamino.cc  ·  oCamino · Vitória, ES

Esta edição foi enviada num domingo de Dia dos Pais. Foi escrita com leve ressaca, depois de receber amigos na noite anterior para vinhos e filosofias. Boa segunda.

oCamino

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