oCamino
edição 006 · carta de domingo23 de agosto de 2026

Como vou lidar com os dias concretos sem poesia, se, criança, eu brincava de flor?

Um pé de estalinho na calçada da infância, uma lei que manda marcar o texto da máquina e não dá conta, um juiz que chamou de mero aborrecimento a prisão de quem a câmera confundiu, a conta de quantas horas separam quem cruza a cidade de helicóptero de quem sai às cinco, e um eclipse na madrugada de quinta.

01Carta de domingo

Como vou lidar com os dias concretos sem poesia, se, criança, eu brincava de flor?

Botão de flor, brinquedo ou estalinho?

Essa semana, andando pela universidade, encontrei um pé de flor (vou chamar assim com o propósito de fugir do presente higienista em que estamos vivendo chamando tudo por seus nomes científicos, perdendo o sabor e a graça da abstração do concreto: carne virou proteína; batata frita, carboidrato, e assim por diante. Deus me livre perder o sabor de dizer e de comer a carne!).

Voltando ao assunto, era uma árvore muito comum na rua onde passei boa parte da minha infância, dos 7 aos 12, pelas minhas contas. Dela, nascia uma flor amarela que, antes de seu botão abrir, era como um "estalinho". Para nós, crianças, era pé de estalinho. Automaticamente, quando vi aquele monte de pontinhos amarelos, falei em voz alta (quase gritando de empolgação): "pé de estalinho!" Meu amigo olhou para mim com a mesma cara de espanto de quando solto qualquer uma das minhas invenções de moda. Levei então ele até lá, pedi que fechasse os olhos e estourei um estalinho em sua testa: um sorriso grande se abriu! (exatamente como acontecia quando alguém era apresentado à árvore na minha infância). Horário do intervalo do dia seguinte, digo a um outro amigo que precisava lhe mostrar algo. Levei-o até lá e repeti o mesmo ritual. Sua felicidade foi ainda mais radiante (incrível a surpresa ao se deparar com algo tão natural, simples, bobo).

Colhemos alguns botões e voltamos ao nosso grupo. Dessa vez, ele apresentou a experiência. Alguns disseram "você tá fazendo o barulho com a boca". Eis que experimentavam fazer em si mesmos e o pequeno pontinho amarelo ganhava o coração de mais uma pessoa.

Uma amiga ficou tão encantada que postou "flor de estalinho" com uma foto em seu Instagram. Voltando para a sala de aula, conversando com ela sobre como descobri isso, repito o que já havia contado ao segundo amigo: quando criança, eu ficava bastante tempo sozinho. Não tinha com o que brincar e passava o dia brincando de estourar flor na testa.

Fizemos um silêncio estranho de um segundo (daqueles que parecem durar mais). E então ela devolve:

"Nossa, amigo! Isso é poesia: sozinho, brincava de estourar flor na testa!"

Como é bom se revisitar e se ver pelos olhos de quem tem sensibilidade. Nessa conversa de corredor, colhi mais um pedacinho de mim.

Como vou lidar com os dias concretos sem poesia, se, criança, eu brincava de flor?

Rua onde acontecia a história da carta de hoje, na infância.

01oCamino para fugir do fim do mundo

A marca que sai na primeira reescrita

Toda vez que uma lei tenta resolver um problema de confiança com uma solução técnica, quem escreve o código fica com a última palavra.

Explico: desde 2 de agosto, o AI Act europeu (Artigo 50) exige que conteúdo sintético saia marcado de forma legível por máquina. E texto entrou na lista, ao lado de áudio, imagem e vídeo. A Anthropic embutiu marca estatística em todo Claude lançado a partir dessa data (no mundo inteiro, e não só na Europa), o Google levou o SynthID para dentro do Gemini, e a OpenAI segue sem marcar texto (InfoQ, 18/08).

Só que a marca nasce frágil. O engenheiro Sean Goedecke mostrou que basta parafrasear para o sinal sumir. E um paper de maio deste ano encontrou uma ironia: o detector mais preciso é justamente o que mais se desfaz quando alguém reescreve.

No Brasil, claro, já tem mercado montado em cima da brecha: os "humanizadores". Num teste do G1 (contado pelo Desbugados), um texto identificado como 100% IA passou pelo humanizador e o medidor baixou para 80%. Ou seja: pagou para continuar reprovado. Na mesma reportagem, um professor escondeu uma palavra-armadilha invisível no enunciado da atividade. Dos 35 alunos, 32 colaram a resposta do ChatGPT sem ler o que estavam entregando.

No fim, temos uma máquina que acusa mal e gente que não lê nem o que assina. A lei europeia quer saber de onde o texto veio. Eu queria saber quem ainda o lê.

Se amanhã um texto meu for acusado de ter saído de uma máquina, o que eu tenho para mostrar além do texto pronto?
02Imagem da semana

Transformação de mundos por meio dos negócios

 
Estamos escritos na história: a Atitude Inicial foi escolhida como uma das histórias para o Livro do Shell Iniciativa Jovem

Mostra · Que a Atitude Inicial foi homenageada, compondo o livro histórico de cases de sucesso do Programa de apoio ao Empreendedorismo da Shell.

Esconde · Não esconde, mas é sempre importante dizer sobre a quantidade de pessoas fundamentais que compõem esses capítulos da nossa história, ainda que seus nomes não estejam escritos ali.

Diz sem dizer · Nossa gratidão àqueles que formaram e formam time, clientes, equipe do Programa (Cieds e Shell), equipe de idealização, redação, captação e produção do material.

03Incômodo da semana

"Todo mundo tem as mesmas 24 horas!"

Eu jurava que isso era meme. Que não existiam, em 2026, pessoas que ainda acreditam nessa lógica.

Pensei se seria pedagógico, ou se traria com a intensidade da indignação com que a "bonita da frase" me provoca. Dei uma filtradinha. Mas não o bastante para deixar de avisar: caso você, leitor, pense como a coach do estúdio de bicicletas da Praia do Canto (bairro nobre da cidade onde vivo), talvez seja hora de ampliar sua consciência de classe.

Podemos começar nosso exercício de reflexão por aqui mesmo: quantas horas separam você do milionário que cruza a cidade em quinze minutos de helicóptero? E quantas te separam de quem sai às 5h para chegar às 9h? (Vale responder se você for um dos dois também, ok?)

As 24 são as mesmas só no relógio!

 
Manda pra mim · anônimo

O que está te atravessando esta semana e você ainda não nomeou?

Me manda algo que podemos dar nome juntos! Uma cena, um print, uma frase que ficou atravessada na semana. Chega anônimo, sem IP, sem e-mail, sem nome.

Mandar agora →
 
Comentei pra você · devolutiva

Li, senti e tentei responder aqui...

Essa semana me senti contemplado pelo incômodo e pelo afeto de duas mensagens de vocês...

Você me mandou

“Uma ansiedade por quem não está acompanhando as mudanças causadas pela AI… quando dialogo sobre o tema com essas pessoas, me sinto um ET. O meme “Nóis não tamo vivendo no mesmo mundo” bate certinho.”

Eu respondo

Já passei algumas sessões da minha análise aflito com isso.
Entendi que não dá para "salvar" quem não o quer.
Sinto que quem ainda não está olhando para a dimensão do que estamos vivendo ou está agindo exatamente como o sistema, os boletos e a correria por grana pedem (capitalismo funcionando perfeitamente), ou simplesmente possui o plano B de ir morar na fazenda, já garantido, com reserva de emergência e renda passiva digna de aposentadoria.

E sobre se sentir ET: somos ao menos dois na mesma nave.

Ler esta e as outras na íntegra →

Você me mandou

“gostei tanto quando voce falou "mas foram as pessoas no meu caminho, as mais incríveis, que me ensinaram a me amar".”

Eu respondo

Que coisa mais bonita isso! Esse texto da semana passada provocou algo tão bonito em algumas pessoas, que me senti privilegiado por ter aí do outro…

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →
04Convergências

Polo A

No dia 30 de agosto a ONU marca o Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimento Forçado, com o tema oficial "Victims first. Actions now" e vinte anos da Convenção. Vinte anos de tratado para chegar ao ponto em que um Estado admite que uma pessoa sumiu e diz o nome dela em voz alta.

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Polo B

Em São Paulo, um juiz classificou como "mero aborrecimento" a detenção provocada por erro do reconhecimento facial do Smart Sampa. Foram 211 abordagens indevidas em doze meses, 67% delas por mandado desatualizado, e a indenização, quando sai, fica em R$ 5 mil.

A mesma máquina estatal que precisa de perito, de arquivo e de duas décadas de convenção para reconhecer um sumiço decide que ser parado na rua por engano não deixa marca. Reconhecer demais, reconhecer errado e não reconhecer nada são três operações do mesmo aparelho, e todas passam pelo nome próprio: o nome que o processo se recusa a escrever, o nome que a câmera troca, o nome que o cadastro guardou vencido. Quem apanha desse sistema apanha sempre no mesmo lugar.

05Inteligência Natural · verbete

humanizar.

verbo transitivo direto

A palavra nasceu para devolver a pessoa ao procedimento que tinha esquecido dela. Humanizar o parto, humanizar o atendimento, humanizar a prisão. Quem dizia isso estava pedindo mais gente onde havia protocolo demais.

Em 2026, humanizar virou serviço pago: descaracterizar texto de máquina para que o detector deixe de reconhecer a origem. O procedimento é trocar palavra, quebrar frase, embaralhar ritmo até o medidor baixar de 100% para 80%. O verbo que significava devolver dignidade passou a significar disfarçar procedência, e o uso está catalogado na reportagem do Desbugados sobre os humanizadores.

Uso corrente entre estudantes: "passa no humanizador antes de entregar".

Se humanizar agora quer dizer apagar rastro, com que palavra a gente vai pedir que um hospital, uma escola ou uma delegacia trate alguém como gente?

06Catadotrês links que valeram o tempo
17 min reportagem

Núcleo Jornalismo

Vítimas de falhas do Smart Sampa buscam indenização na justiça

Jeniffer Mendonça acompanhou quatro processos de gente que foi parada na rua porque a câmera trocou o rosto. O que fica da leitura é o percurso de quem precisa provar em juízo que passou por aquilo, e ouvir do Estado que aquilo não conta.

10 min resenha

Quatro Cinco Um

O fotógrafo é um pescador

Memórias de Pedro Martinelli, seis décadas de imprensa brasileira, com as páginas originais reproduzidas em fac-símile. Pescar e fotografar cobram a mesma coisa de quem faz: ficar parado até a hora exata. Vale pelo arquivo e pelo tanto de país que passa dentro dele.

8 min entrevista

Revista Continente

"Tento ser um criador de mundos estranhos e belos"

Armando Lôbo fala do iLUDENS!, que estreou no Cais do Sertão com entrada franca e cruza música contemporânea, tradição sertaneja, teatro e filosofia, partindo do Homo Ludens de Huizinga. A conversa passa pela caverna de Platão e pergunta se trocar o mito pela razão valeu o preço.

7 min artigo

IHU Unisinos

Inteligência artificial, Dostoiévski e o medo muito humano da liberdade

Sarah Elizabeth Hunt lê o Grande Inquisidor dentro do uso cotidiano de modelos de linguagem. A troca em jogo é velha: entregar a liberdade de pensar em troca de pão e de resposta pronta. Bom complemento para a matéria de hoje, porque desloca a discussão da detecção para o apetite.

4 min nota

B9

O leilão pelo creator

YouTube e Netflix disputando criadores com propostas milionárias, repetindo linha por linha o manual dos estúdios de TV. Quatro minutos para entender por que o contrato de exclusividade voltou. Quem produz conteúdo por conta própria devia ler antes de assinar qualquer coisa.

07Cartografia da próxima semana
25 terça · agosto

Último dia do credenciamento gratuito da Bienal do Livro de São Paulo

Gratuito para professores, bibliotecários, gráficas e editoras. A feira acontece de 4 a 13 de setembro, o que vence agora é o prazo do credenciamento.

26 quarta · agosto

Encerram as inscrições da Sedu para professores de curso técnico no ES

Contratação temporária pelo edital 29/2026, exige nível superior na área, e o prazo fecha às 17h. Se você é do Espírito Santo ou conhece quem esteja procurando, repasse hoje.

27 quinta · agosto

Eclipse quase total da Lua, visível em todo o Brasil

Penumbra às 22h24, parcial às 23h34, máximo à 01h13 de 28/08, cobrindo 96,2% do disco. Dá para ver a olho nu, sem óculos e sem equipamento, e o Observatório Nacional transmite ao vivo.

28 sexta · agosto

Começa o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV

De 28 de agosto a 1º de outubro, dois blocos diários mais as inserções ao longo da programação. A paisagem sonora do país muda de sexta em diante, inclusive para quem não assiste.

Foto do autor

Quem escreve & cura

Jota

Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO!

contato@ocamino.cc  ·  oCamino · Vitória, ES

Escrevi ouvindo jazz com meu amor, tomando vinho e sentindo um ventinho fresco de uma tarde de outono. Amo dias ensolarados e frios. Boa segunda.

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