oCamino · edição #003 · 2 de agosto de 2026

Não coube em uma frase

Toda semana escolho mensagens que vocês me mandam e devolvo uma frase na newsletter. Algumas pedem mais do que uma frase. Estas são elas, inteiras.

01

Você me mandou

Aprendi com um sábio em um passado (não-muito-distante), que em 2026 nada é anônimo. hahah. Tenho refletido sobre a produção de imagem. Sempre fui, e acho que ainda sou, um ótimo produtor de imagens. Faço boas fotos, vídeos e etc. Isso, obviamente, se transformou em um trabalho mas raramente só a produção pro
ler a mensagem inteira trabalho me deixava "satisfeito". Eu gostava, fazia e queria produzir minhas próprias imagens. Sinto de nos últimos 2 anos esse desejo se foi e tudo virou um mais do mesmo ou pouco atraente. Para não assumir completamente essa responsa, coloco a culpa no excesso de produção de conteúdos incríveis que vivemos no contempoâneo. Se já tem taaaanta coisa legal por aí, pra que fazer algo mais? Mais recentemente coloco a culpa do meu desinteresse em produzir novas imagens nas imagens produzido por IA. Se o hiper é o normal, o que acontece com o nosso normal? Dito isso já fiz meus 2 posts do bimestre nos stories hoje e talvez sejam os últimos até algo mais me encher os olhos.

Eu respondo

Será que não há sempre um anonimato de nós em nós mesmos...? hahah

Aqui eu vivi um mix de identificação com "me dá um abraço aqui!" (se não somos, quero ser seu amigo!).

Tem uma velha frase que diz "Trabalhe com o que ama e... nunca mais amará nada...".

Para mim, (e para Freudinho), criar coisas é do campo da natureza humana do existir. O que somos nós sem desejos e a tentativa de realizá-los? É preciso que coloquemos algo de dentro para fora em forma de sublimação, arte, sonho... E o problema começa quando alguém compra justamente o seu lugar de criação no mundo.

A sociedade que vivemos, infelizmente, vai aproveitar seu desejo, sonho, habilidades em parte da sua sobrevivência. E aquilo que servia para te fazer respirar, extravasar os desgostos dos dias, passará a ser, ele próprio, seu desgosto. Cuidado com o que empresta ao Capital!

Você me diz: "Sinto de nos últimos 2 anos esse desejo se foi e tudo virou um mais do mesmo ou pouco atraente.".
Eu te pergunto: pouco atraente para quem? Tem a ver com a sua visão para si ou sobre o "excesso de produção de conteúdos incríveis que vivemos no contemporâneo"? Incrível para quem?

Mas pergunto porque a Sociedade do Cansaço (Byung-Chul Han, que amo citar) quer que você se sinta exatamente assim. Ou você entrega a "dancinha" ou não vai receber os aplausos do que o sistema quer que você entregue. E o pior: ninguém precisou te obrigar a nada, você se cobra sozinho.

Me pergunto se no seu momento de apaixonamento pelo que hoje você me diz te frustrar, havia referências e conteúdos incríveis (clássicos ou contemporâneos)... Porque o mundo produz em excesso já há algum tempo. Contudo, ao ver algo incrível no "antes" te causava o mesmo que o agora?

Tal qual você, sou apaixonado por fotografia, audiovisual, registros simbólicos... mas, de tanto ter a obrigação de ver e produzir coisas que, nem sempre tinha liberdade estética ou o devido reconhecimento pelo valor de cuidado do que era produzido, o tesão morreu!

O prazer sobrevive ao excesso? Ou ele se sufoca e morre?

Com sorte e sem pressão, em meu novo ritmo de vida, reencontrei velhos eus com seus desejos intactos, guardados numa caixa longe do "faça por dinheiro". Qual a última vez que clicou porque achou bonito, ou porque quer uma memória do corpo que um dia ficará diferente, ausente? Tem tido tempo de rever aquilo que ficou registrado da sua última viagem? Aliás, tem viajado (fisicamente) ou mentalmente de modo que não seja para produzir?

E fiquei na dúvida: você não registra ou não posta? Escrever é uma coisa. Publicar é outra.
Eu publico para me ver livre das minhas loucuras! Só às vezes gosto. Você publica pelo quê?

Você me falou aqui de coisas do campo do público, mas você broxou em si mesmo? Temos fotos no seu celular, câmera digital ou analógica do que te provoca tesão aos olhos, ou pela frustração, os cliques cessaram? Temos espaço para uma nova versão aí?

Me chama para um café com vinho!?

02

Você me mandou

tenho pensado muito nas mil demandas da vida e como não enlouquecer fazendo tudo igual todo santo dia, como dar conta de tudo e não esquecer nada pra tras. sabe, quando temos filhos pequenos, eles nao sabem quando é sexta ou quando é sabado, só sabem que o dia é dia e noite é noite. crianças entendem o tempo como a
ler a mensagem inteira sequencia de coisas que eles fazem na rotina. e a rotina na maternidade, sendo solo ou não, é bem esmagadora, geralmente sobrecarregada e com altos niveis de cortisol. então, pra mim, que dindividualmente sempre achei caretice papo de rotina, de fazer tudo igual, tenho percebido, obrigadamente, mas tenho notado a superficie das coisas que nunca me deixei enxergar. como é importante o carinho diário com nossos sonhos, como cada dia que se passa fazendo a mesma coisa na verdade é um processo de fazer uma grande coisa (ensinar uma pessoa a ser pessoa - ensinar a comer sozinho, ir ao banheiro, dormir, tomar banho etc). mesmo enxergando racionalmente, ritualizando a passagem dos meus dias, as vezes é bem duro estar no mood todo dia ela faz tudo sempre igual me sacode as 06h da manhã. e conversando com amigas, eu falava disso... de estar na rodinha do hamster. todo dia na rodinha do hamster, correndo, correndo, correndo, correndo, correndo. bem, não sei muito bem onde vou chegar, tenho guardado dinheiro, feito planos, trabalho, cuidado de criançam casa casamento. tem hora que não é muito sobre raciocinar e mais sobre executar. meus amigos sentem falta de mim e eu também deles, porem, no meu momento de lazer eu tenho escolhido a paz da minha casa à bares barulhentos, como era comum de outrora. muitas vezes, depois que o dia acaba, eu não quero nem pensar. quero assistir o coiote e o papa leguas no youtube, quero meu cerebro tão liso quanto um peito de frango. porque eu sei que no outro dia, o coro come de novo, e de novo, e de novo, e de novo, ad eternum. Não sei se vai me ajudar ou se vai me deixar mais maluquinha, mas comprei O Mito de Sisifo, de Albert Camus para ler. Diz ele que é preciso imaginar Sisifo feliz e eu quero entender como.

Eu respondo

Será que eu dou conta de dizer qualquer coisa que não: obrigado por compartilhar e espero que tudo isso que você já enxerga ganhe os lugares que você precisa que eles ganhem, e que o que ainda não vê se torne claro ou ao menos te leve a um outro lugar que te permita enxergar o tanto de peças que você já está encaixando na vida e igualmente nesse texto curto, mas cheio de clareza e autoconhecimento.

Tenho pouco ou quase nada a contribuir do lugar da maternidade, exceto minhas reflexões empáticas. A sociedade não é gentil com mulheres e isso é parte do peso que talvez esteja relatando aqui. Me parece que você entende o momento, se insatisfaz com a roda do hamster, contudo entende também que, dentro das circunstâncias, tá fazendo o que pode.

O Mito de Sísifo vai na contramão dos coaches, o que por si só já me empolga (não gosto de quem vende resolução de vida com formula mágica): ele não promete a felicidade quando conquistamos o topo da montanha. Ele mostra que, ao chegar lá em cima, a pedra rolará de volta para a base. E que o caminho é onde a vida acontece, seja vendo papa-léguas em casa com o cérebro liso, seja no dia de exceção em que, em vez de ir para o bar, você chama os amigos para uma noite light que te permita matar a saudade deles, e eles de você, sem que as responsabilidades fiquem de lado. Pode ser o melhor que conseguimos, e por isso mesmo pode ser felicidade.

Rubem Alves gostava de repetir uma frase do Guimarães Rosa:

"a felicidade se encontra apenas em pequenos momentos de distração".

Eu explico o como do seu Sísifo por aí: a felicidade só em raros momentos de distração. Como bons neuróticos, passamos boa parte da vida refletindo sobre respostas que não chegarão. Sísifo feliz talvez seja Sísifo distraído da pedra.

Ter metas é importante, mas se elas vêm pela pressão de tê-las, pode ser que elas te distraiam do desejo.

Todo dia às vezes vai ter cara de todo dia mesmo. Mas também pode ser que a gente possa se cobrar menos e perceber que a gente tá cheio de vazios e espaços para colher dias dentro dos dias.

Me dá um abraço e, por favor, siga me escrevendo!

03

Você me mandou

Uma das cartas que você respondeu essa semana me chamou muita atenção, talvez seja por conta que me encontro no extremo oposto. Eu não registro a vida, e isso me incomoda. Não é como se eu tivesse uma regra rigorosa que me proíba de tirar fotos e gravar momentos aleatórios do dia. Na realidade eu faço isso. Diversas
ler a mensagem inteira vezes me pego admirando o céu e a forma como as nuvens dançam e desenham o completo caos e a perfeita harmonia, me fazendo instantâneamente pegar o telefone do bolso, abrir a câmera e me frustrar ao perceber que não consigo capturar todos os sentimentos daquele momento na imagem. De todo modo, não me refiro a esses momentos pequenos e simples, que registramos por sua singularidade, por sua improbabilidade ou por sua beleza. Falo daqueles momentos longos que planejamos (ou não) e damos tempo para vivê-lo: um show, uma festa, um passeio, um almoço. Quase nunca me lembro de registar esses episódios, e logo em seguida, caio na reflexão de: se não registrei, será que vivi isso? Se eu não me recordar, será como se nunca tivesse acontecido? Por que sinto que tenho que mostrar para o outro aquilo que vivi? Por que não teria validade se eu não mostrar? Tais pensamentos me atravessam de maneira tão periódica, que já sei como e quando eles virão. Mas mudando um pouco o rumo de perguntas para algumas prováveis respostas que pensei... Talvez, eu esqueça de registrar esses momentos, porque lá no fundo eu tenho uma resistência a fazer isso, pois sinto que ao estar tirando fotos ou gravando vídeos, estou perdendo o tempo que eu poderia estar admirando o momento com meus próprios olhos. Ou talvez seja, porque não quero estar em estado de vigilância procurando o momento certo pra registrar, a pessoa certa com quem tirar fotos, ou a pose ideal para o corpo ou para o prato. Enfim, é uma reflexão constante que faço, e ler tanto a carta como a sua resposta para ela, me trouxeram uma genuína satisfação por me possibilitar a oportunidade de refletir pela ótica de outras pessoas, e também, por me proporcionar um espaço para compartilhar a *minha* experiência acerca disso com alguém.

Eu respondo

Ler depoimentos como o seu já faz comigo o que a news se propõe: melhorar (minha) próxima semana inteira! Estou sempre aqui, sedento por reflexões inteligentes como as suas.

Sobre o que escreveu, o que seria "viver isso"? Se você tem memória e afeto sobre algo, em que suas faculdades mentais (e às vezes o cartão de crédito) te lembram que de fato aconteceu, a falta de registro te causa que falta? Do post, do like, ou de imagens que te ajudem a rememorar aquilo que aconteceu?

Pergunto porque os caminhos são muitos aqui. Eu amo fotografar, mas prefiro gravar momentos especiais. E na horizontal (contrariando instagram, tiktok, X)... amo, tempos depois, colocar uma música hipster (Lana del Rey, Hozier, Nina Simone), abrir um vinho e rever imagens. Mas já fiz muitas viagens sem fazer isso e me senti frustrado por "só" ter aquilo na memória. Me incomodou não ter os registros e passei a me disciplinar para, em alguns momentos (não todos), registrar como exercício de escrita de um diário, sabe? Não como devoção às mídias sociais.

Uma vez fui ao show da banda Florence and The Machine. Toda a plateia com os celulares suspensos para uma das músicas. Florence, com seu ar de bruxa nórdica, vira e diz algo como:

"por que vocês estão vivendo esse momento por meio de uma tela? Desliguem seus celulares. A vida tá acontecendo aqui, agora, ao vivo. Vocês não irão lembrar do show, irão lembrar de passar horas gravando um show."

Então, veja o que te cabe... a vida não cabe em uma tela, mas você já parou para olhar fotos da sua infância?

04

Você me mandou

1) Editar e roteirizar vídeos das minhas viagens, transformando eles em filmes ou qualquer coisa perto disso. É um hobbie e quase que uma forma de arte / expressão pessoal. 2) Ler livros com a intenção de me divertir e me inspirar. Quando a intenção é aprender algo ou uma leitura mais técnica, as vezes peço um
ler a mensagem inteira resuminho pra IA sim :D

Eu respondo

1) Quase nada, conceitualmente, é mais puro suco do que é criar arte. Eu tiraria o "quase" da tua frase: transformar viagem em filme é arte, sim.
2) Somos dois em ambas as camadas! Quando leio por prazer, preciso me proporcionar ausência de intermediários. Quando preciso devorar algo das minhas quaisquer coisas que gosto ou preciso aprender, muitas vezes o NotebookLM é meu principal aliado.
Cheers!