oCamino · edição #007 · 30 de agosto de 2026
Não coube em uma frase
Toda semana escolho mensagens que vocês me mandam e devolvo uma frase na newsletter. Algumas pedem mais do que uma frase. Estas são elas, inteiras.
Arrisco dizer que pescar e fotografar passam pelo aguardo, mas também pela navegação entre espaços até se alcançar o ponto certo. O fotógrafo e o pescador sabem que nem todo mar dá peixe… então sabem aonde ir, como se posicionar e, na hora certa, capturar o que passa.
Na semana, me capturam as horas de tela nemler a mensagem inteira
sempre profícuas… não para um filme ou para um curso, mas pelo caça-níqueis algorítmico que ainda detém valor pela quantidade de pessoas que passam por ele. E me chamou atenção como uma marca conseguiu se manter relevante e confiável sem ocupar Instagram, TikTok ou Facebook (embora ainda viva no LinkedIn): https://www.instagram.com/p/DbmMD3QgBXT
Eu respondo
É o tipo de comentário que daria um livro ou uma tarde filosófica boa, de tantas camadas. Um belo poder de síntese (que às vezes me falta) com profundidade.
Acho que se inspirou pela matéria da última semana sobre pesca e fotos, né? Gosto da relação que fizeram e que você fez, só me pergunto se, para a foto, há o local ou o momento "certo", tal qual para pescar o peixe. Claro, se estivermos falando de trabalho, aí o clique de milhões precisa acontecer por obrigação contratual. Agora, se é sobre fotografar a vida, aí é o diametralmente oposto da pescaria: quanto menos amarras na rede, mais "peixes". Não? Fotografamos para quem?
Sobre sua relação com os algoritmos e telas, como diriam os behavioristas: é puro reforço intermitente, e o caça-níquel é outro lugar onde isso se aplica. Poucos mortais se livram dessa "jogatina dopaminérgica"...
Adorei o case e penso que ele atende a uma demanda de desejo, com qualidade, com estratégias próprias inclusive para fisgar quem já cansou de rodar a roleta.
Seu desejo anda apontando para a fotografia, para as telas ou para fora delas? Adorei!
Esses dias, estava conversando sobre amor com meu namorado e essa conversa me gerou boas reflexões. E quando digo "boas" não entenda como algo ruim ou bom, se permita pensar pelo ângulo de: boas para tirar da zona de conforto.
Meu namorado, curioso por conta de uma série que está vendo, pediu minha "opiniãoler a mensagem inteira
psicológica" a respeito do amor. Ele queria saber se é possível alguém amar romanticamente duas pessoas. Então lhe ofereci meus conhecimentos e minhas reflexões, tentei ser o mais "psicológica" possível (já que tinha me solicitado isso), mas como falar de amor sem deixar transparecer os próprios amores?
Por quarenta minutos dividimos pensamentos e conhecimentos, falamos sobre o tempo, a paixão, sobre os diversos tipos de amor, sobre desejo, também lhe ofereci meu raso conhecimento psicanalítico (me apaixono pelo outro vendo aquilo que existe de "mim" nele). Assim seguiu a conversa por um bom tempo, até que um silêncio me cobriu e me toquei da tolice que estávamos fazendo, até aquele ponto da conversa não tínhamos mencionado a poligamia e as culturas não monogâmicas. Ora, agora a resposta parecia bem simples e evidente: Sim! É plenamente possível (e normal em certos lugares) que se ame mais de uma pessoa romanticamente. Felizmente, nossa conversa não parou por aí, nos estendemos ainda mais no diálogo por conta desse feliz acréscimo que me ocorreu.
De todo modo, hoje me peguei pensando no amor, nos diferentes tipos de amor e me lembrei dessa conversa. Uma coisa que sem nenhuma dúvida consigo afirmar é que não se ama ninguém da mesma forma. As pessoas nos atravessam de diversas maneiras e as amamos por diversos motivos, não acredito que seja prudente pensar que o mesmo amor possa ocupar dois espaços distintos. É possível entender quando uma mãe diz "amo meus filhos da mesma forma" porque acredito que ela se refira a intensidade que os ama, porém a mesma maneira.... Talvez não.
Acho que por esse motivo, desde o início do meu debate com meu companheiro, eu estava inclinada a responder que é possível um amor plural. As pessoas nos tocam em diferentes lugares e nos confortam de diferentes maneiras, o desejo que se reflete em cada relação que tenho é diferente. E isso torna o social extremamente empolgante.
Eu respondo
Eu tô até agora tentando entender onde estava a tolice em ter uma conversa profunda sobre "amor" exatamente com alguém com quem você compartilha esse sentimento (que para mim tem muito mais a ver com essa construção que vocês dois fizeram dialogando do que com a ideia do amor romântico com o mito da completude).
Tenho muita dificuldade com a palavra "normal". Para mim (e para o dicionário) ela evoca "norma; normatividade". Pensar que existem lugares onde a norma é amar mais de uma pessoa reforça que isso é sobre Poder (quem define a norma define o amável) e, de quebra, dispensa a pergunta sobre ser possível: o que já existe não precisa de licença. A grande questão para mim seria: é normal, possível, cabível para vocês (individualmente e em conjunto)?
Achei ótimo você falando do conceito de narcisismo freudiano sobre apaixonamento chamando de "raso conhecimento" hahah
Diversos espaços dirão que amar é buscar a cara metade, a parte que falta e que completa. Seja em uma relação afetiva/romântica/erótica, ou com pares consanguíneos (em filhos, irmãos, etc.).
Não acredito nesse mito filosófico. Vejo o amor como uma dança de faltas e de investimento de energia. De crescimento, de compartilhamento de sentidos. De nós conosco. De nós com quem escolhemos (mesmo inconscientemente) amar ou lutar.
Sinceramente? Amar romanticamente mais de uma pessoa não me parece desafiador. A forma como isso se materializa (internamente), te toma ou é "domado" (nunca em linha reta nem de forma definitiva), é onde mora o desafio e a mágica de viver. Que feliz alguém com tanta implicação no amor por aqui! Eu tenho muita sorte: obrigado por me escrever!
eu tive momentos muito ruim de comer quando era criança, vivia arrumando desculpas. um dia minha mãe fez um feijão com banana da terra que ficou ABSOLUTAMENTE DOCE, eu falei que tava doce e ela não acreditou, me fez comer o prato de arroz e feijão e eu ali, chorando, reclamando, dando as colheradas. lá pelas tantas,ler a mensagem inteira
quando já tava lá pro meio do prato pro fim, ela resolveu provar e não é que tava realmente doce? 🤡🤡🤡 ela tira por menos, coisa corriqueira, hoje eu rio disso mas foi horrivel, jamais esquecerei. kkkkkk
Eu respondo
Quando eu li sua mensagem, fiquei um tempo rindo, imaginando os constrangimentos da pessoa adulta ao perceber que, desta vez, a criança estava falando a verdade... Adultos, infelizmente, não costumam pedir desculpas às crianças, e acho que o "tirar por menos" é uma prova disso, né? Meus sentimentos pela Banana com Feijão (se fosse tropeiro, talvez ficasse bom, não? hahah).
Fiquei com vontade de saber mais sobre o "jamais esquecerei"... Talvez seja um bom sinal para, ao ter filhos, ou provar toda comida antes, ou dar um voto de confiança quando houver alguma queixa.
Is Everyone Truly Doing Their Best? os limite dessa premissa
Eu respondo
Brené Brown, pessoa leitora? Amo como vocês sobem a régua!
Bora lá: a partir da lógica subjetiva que cada um tem sobre o que é "o seu melhor", acredito que sim (cada pessoa lida com a realidade que consegue dar conta e isso, em algum nível, é lidar com o seu melhor possível).
Agora, o melhor do outro é o melhor para você? O melhor de si é o melhor para você? É o melhor para o todo? Nem sempre. Aí acho que é sobre, no meio do caminho chamado vida, descobrir quais portas se abrem e se fecham para esse "melhor" possível e desejante de cada um.
Ana Suy fala de como a realidade pode ser um alívio e, nesse contexto, pensar sobre o outro é sempre fantasioso. O mais concreto a que você chega é a forma como isso te atravessa, então eu te devolveria: o que isso tudo aqui faz com o seu melhor?
Meu desconforto e meus sentimentos foram desconsiderados, como se o que aconteceu comigo fosse apenas um mero aborrecimento.
Eu respondo
Uma das frases mais profundas que já chegaram aqui.
Difícil responder sem mais contexto, mas você sabe que o outro é uma das formas de termos notícias de nós, né? Sem ser o validador do que sentimos. Se para você não foi "apenas" um aborrecimento, então o que aconteceu foi, em algum nível, aquilo que você sente que foi.
Os paparazzis da vida real em Vitória que te fotografam sem mesmo você pedir, saber ou autorizar!
Desde quando uma simples caminhada na orla virou performance??? Gente, vamos parar, por favor!
Eu respondo
Você tem certeza que não autorizou? As letras miúdas de algum site, app ou do nosso voto, talvez digam o contrário... (mas eu concordo com sua indignação e assino onde for para fazer isso parar!)
A poesia deve ser mesmo um território onde se pergunta afirmando. Sem se preocupar com a interrogação.
Eu respondo
A beleza da poesia é poder ser?! (perguntei afirmando?)
Um erro humanamente histórico.
Eu respondo
E o que fizemos do que nos fizeram?
Eu preciso me distrair o tempo todo da própria vida, porque viver me é absolutamente insuportável.
Fui surpreendida por esta frase enquanto rolava o feed no automático e tenho pensado nela desde então, em particular, esta semana. No início, ela me impactou pela forma como parece rejeitar a vida e apenas ficar àler a mensagem inteira
deriva, esperando que termine em algum momento. No decorrer do mês, eu comecei a colocar de forma consciente a ideia de me distrair: chamei amigos para ver filmes, conversar e, enfim, me distrair.
Realmente, quando não se está pensando na vida, nos problemas, nas ansiedades e medos que viver provoca, é suportável; toda essa jornada parece realmente ter sentido e valer a pena.
Então, essa semana, concluí que essa frase não me soa tão pessimista assim, talvez seja sobre isso a tal distração. Viver tanto que se esquece da vida, se esquece de tentar encontrar um sentido ou fazer disso algo para se nomear. Confesso que existem dias em que fica difícil ter conclusões bonitas e reconfortantes e, nesses dias, eu conscientemente preciso me distrair.
Talvez um paradoxo? huahdua achei divertida a conclusão. Conversar com você, mesmo que indiretamente, sempre me rende bons insights! Um abração e bjo, porque agora estou me sentindo formidável!
Eu respondo
Muitos pensadores clássicos dedicaram toda sua existência a dar sentido ao que sentimos sobre o intervalo entre a vida e a morte. E também contemporâneos... (no fim, eu diria que todos os que passaram por esse planeta pensaram sobre).
Jout Jout disse algo como "viver é se distrair do fato de que você vai morrer". Adam Phillips, algo como: "passamos a vida inteira tentando nos distrair da única coisa que realmente sabemos sobre o futuro".
Precisaríamos, antes de começar nossa viagem conjunta, contextualizar o que estamos chamando de vida. É o intervalo biológico, entre o nascer, respirar, fechar os olhos, não mais respirar? É sobre a dimensão de, uma vez podendo se encantar, apaixonar, sentir, fazê-lo?
Se for sobre existência, acho que Jout Jout tem razão... por que focar tanto no fim, perdendo a oportunidade da vida que acontece no meio? Que feliz você ter conseguido empiricamente viver isso com amigos e pessoas queridas! Vivemos tempos desafiadores para pessoas reais e sensíveis (no melhor dos sentidos que sensibilidade possa ter).
E também estou com Ariano Suassuna: "Viver dá muito trabalho. Eu não sou nenhum otimista tolo. A morte é inevitável. Mas eu continuo achando que não precisa ser hoje!"
Fico feliz que a gente se encontre nas conversas. Essa coisa do anonimato me deixa curioso e instigado, então celebro que ninguém ainda tenha me xingado e que, no seu caso, a troca seja de bons sentimentos. hahah
Amei te ler!