oCamino
edição 003 · carta de domingo2 de agosto de 2026

Quem está de partida arruma a mala de um desconhecido

Darwin chamou a própria mente de máquina de moer fatos antes de a máquina existir. A IA compra livro velho por higiene, consultorias foram flagradas citando fontes que não existem, e uma senhora no shopping me leu antes de eu abrir a boca.

01Carta de domingo

"Quem está de partida arruma a mala de um desconhecido"

Vista de onde concluo minha carta neste domingo, sentado no sofá em completo silêncio.

Amo muitas coisas e, de tempos em tempos, amo obsessivamente maratonar podcasts enquanto malho. Marcela Ceribelli, com toda sua genialidade do Bom dia Obvious, logo que lançado o livro "Eu só existo no olhar do outro", recebeu os autores Ana Suy e Christian Dunker. Começo te dizendo isso para te descrever de onde tirei a frase título do texto, mas também para te indicar esse episódio (que de tão bom, virou dois) e que pode te ajudar (MUITO) a entender suas relações e também a si.

O fragmento é parte do poema "Fazer as malas é tarefa impossível", de Ana Martins Marques, do livro "Risque esta palavra", um dos textos comentados na conversa e que, ao ler a versão completa, me tirou o chão (ou me levou ao céu).

Sinto vontade de explodir quando encontro alguém com tamanha capacidade de emaranhar tanta vida, sentimentos, imagens, conceitos em encadeamento de palavras bonitas que nos fazem sentir e compreender algo como quem bebe água gelada em dias de calor escaldante.

"Quem está de partida arruma a mala de um desconhecido" é o resumo daquilo que vivo inspirado a ser: um viajante rumo a um desconhecido em mim, que por sua vez, assume a vida inédita do que fui até aqui.

Nessa viagem, aquele que me torno amanhã não lidará da mesma forma com muito daquilo que já passou: um desafeto, pode se acalmar, então o ódio virar perdão. O amor virar decepção. A preocupação virar apatia.

Aquele que deixo de ser, morre, abrindo espaço a esse estranho conhecido, que chega mudando coisas de lugar. Tirando a poeira dos móveis. Jogando fora certezas que por uma vida inteira (ou não) estiveram ali.

Alguns desses movimentos (para não dizer todos), doem. Outros provocam um alívio de colocar asas nos pés. Ambos, sem dúvidas, algum prazer.

Mas gosto!

Eu gosto de fazer as malas. Gosto de me desfazer de roupas que não me cabem mais.

Gosto de me descobrir burro, vazio, superficial, ignorante no ontem (ainda que me aflija sempre reler o texto da semana passada ou o último relatório final para o cliente).

Gosto porque até hoje, convidar novas versões de mim para entrar, me mostrou que o mundo é infinitamente maior do que o lugar que eu ocupava antes de abrir essa porta. Geograficamente antes de pisar em um novo país ou continente. Ou num hobby ou curso que me provoca a deixar para trás muitos modos de existir que já não fazem mais sentido.

O fato é que fazer as malas dá trabalho. Não fazê-las, mais ainda.

Vejo amigos e conhecidos reclamarem uma "vida inteira" de versões de si que lhes doem, mas ainda assim sustentam: o excesso de cuidado com os outros ("se eu não fizer, ninguém faz"), o medo de desagradar, a paralisia pelo medo...

Como bom amigo, escutar e acolher é parte do combinado da relação. Mas a torcida é, para que um dia, em terapia ou ao acaso no café da manhã, a conclusão chegue para eles, sobre eles: "levou tanto tempo para que eu me acostumasse ou amasse essa versão de mim. Estou com medo de que as velhas roupas não caibam no novo eu e, com isso, eu precise me desfazer de mim, de pessoas que gostam de mim com essas roupas e, com isso, corra o risco de ficar só. Em desamparo."

Porque no fim, não acho que o medo escondido em nossas repetições seja da solidão. Todo mundo corre, ou empaca, por medo do desamparo. Sem saber que a fuga é, quase sempre, esforço inútil (ainda que ela realize desejos).

Se o desconhecido que você vai ser chegasse hoje, o que ele jogaria fora primeiro?

Você sustenta o vazio que se abre ali?

02Incômodo da semana

O preço dos racismos nossos de cada dia...

Segunda-feira, saio da aula de Tênis, passo no shopping para comprar um item novo. O vendedor vai ao estoque consultar a disponibilidade na cor que eu gostaria e eis que de repente, não mais que de repente a senhora "distraída":

"Quanto custa essa bola?"
Ignoro
"Ei, psiu... quanto custa essa bola?"
Respiro fundo, subo o olhar, dos pés à cabeça: eu não trabalho aqui... (com claro tom de ironia e desaprovação).
"Ah, mil desculpas... (com algum notável constrangimento)"

Ou seja, se nem o fato de eu estar no celular, distraído (diferente de alguém que trabalha na loja), em um look de academia (diferente dos uniformes dos demais atendentes), calçando um tênis de R$1500, uma bermuda de R$600, uma camisa de R$300, foi suficiente para impedir uma cena como essa (continhas só para eliminar a lógica argumentativa de "talvez você estivesse vestido de forma inadequada"), caro leitor, o que mais poderia ter feito com que ela não me confundisse com um trabalhador (digno) da loja?

Se somarmos um telefone de 10 mil e um relógio de 2, com quase vinte mil no corpo, eu ainda seria confundido. Só uma coisa teria mudado a cena, e não está à venda e tampouco eu compraria: mudar a cor da minha pele.

03oCamino para fugir do fim do mundo

A consultoria que ensina IA responsável esqueceu de ler o próprio relatório

Há um tipo de erro que só aparece quando alguém confere a fonte, e quase ninguém confere. A GPTZero conferiu e achou alucinações de IA em quatro relatórios de thought leadership da PwC no Oriente Médio: estatística fabricada, nota de rodapé falsa, atribuição trocada. Um deles garante que 70% dos CEOs da região esperam que a IA generativa refaça seus negócios, e cita uma pesquisa que não existe. Em outra nota ficou pendurada uma URL com a tag utm_source=chatgpt.com, a digital de quem gerou o texto e esqueceu de apagar. A reportagem do The Next Web mostra que a lista não para ali.

As quatro grandes entraram nela. A KPMG retratou um relatório com afirmações falsas sobre UBS, NHS e Transport for London. A EY retirou um estudo com notas inventadas. A Deloitte inseriu fabricações em documentos de governo duas vezes, uma delas num plano de saúde de 1,6 milhão de dólares no Canadá que citava artigos inexistentes.

Do lado de quem constrói, a promessa é limpa: a IA acelera, resume, devolve o consultor caro ao trabalho de pensar. O mercado corre nessa direção com fé, e aprende a vender a própria pressa como se fosse método.

Do lado de quem paga a conta, essa mesma pressa terceiriza a autoridade. Quando a marca que vende consultoria em IA responsável assina um relatório que a própria IA escreveu no susto, o que estava à venda parou de ser o método e passou a ser só a assinatura. A máquina de moer de Darwin trabalhou a noite inteira. Faltou alguém com gosto pela fonte para reler de manhã.

Com isso dito, deixa titio te perguntar: o que você entregou semana passada que não conseguiria provar, com a fonte na mão, se alguém pedisse?

 
Manda pra mim · anônimo

Me manda algo que podemos dar nome juntos!

Tem algo te atravessando esta semana e você não sabe onde colocar? Manda pra mim, de forma anônima. Leio tudo e devolvo, no domingo seguinte.

Mandar agora →
 
Comentei pra você · devolutiva

Li, senti e tentei responder aqui...

Toda semana, escolho uma mensagem que vocês me enviaram e respondo por aqui.

Você me mandou

“Aprendi com um sábio em um passado (não-muito-distante), que em 2026 nada é anônimo. hahah.
Tenho refletido sobre a produção de imagem.
Sempre fui, e acho que ainda sou, um ótimo produtor de imagens. Faço boas fotos, vídeos e etc. Isso, obviamente, se transformou em um trabalho mas raramente só a produção pro trabalho me deixava "satisfeito". Eu gostava, fazia e queria produzir minhas próprias imagens.
Sinto de nos últimos 2 anos esse desejo se foi e tudo virou um mais do mesmo ou pouco atraente. Para não assumir completamente essa responsa, coloco a culpa no excesso de produção de conteúdos incríveis que vivemos no contempoâneo.
Se já tem taaaanta coisa legal por aí, pra que fazer algo mais?
Mais recentemente coloco a culpa do meu desinteresse em produzir novas imagens nas imagens produzido por IA.
Se o hiper é o normal, o que acontece com o nosso normal?
Dito isso já fiz meus 2 posts do bimestre nos stories hoje e talvez sejam os últimos até algo mais me encher os olhos.”

Eu respondo

Será que não há sempre um anonimato de nós em nós mesmos...? hahah

Aqui eu vivi um mix de identificação com "me dá um abraço aqui!" (se não somos, quero ser seu amigo!).

Tem uma velha frase que diz "Trabalhe com o que ama e... nunca mais amará nada...".

Para mim, (e para Freudinho), criar coisas é do campo da natureza humana do existir. O que somos nós sem desejos e a tentativa de realizá-los? É preciso que coloquemos algo de dentro para fora em forma de sublimação, arte, sonho... E o problema começa quando alguém compra justamente o seu lugar de criação no mundo.

A sociedade que vivemos, infelizmente, vai aproveitar seu desejo, sonho, habilidades em parte da sua sobrevivência. E aquilo que servia para te fazer respirar, extravasar os desgostos dos dias, passará a ser, ele próprio, seu desgosto. Cuidado com o que empresta ao Capital!

Você me diz: "Sinto de nos últimos 2 anos esse desejo se foi e tudo virou um mais do mesmo ou pouco atraente.".
Eu te pergunto: pouco atraente para quem? Tem a ver com a sua visão para si ou sobre o "excesso de produção de conteúdos incríveis que vivemos no contemporâneo"? Incrível para quem?

Mas pergunto porque a Sociedade do Cansaço (Byung-Chul Han, que amo citar) quer que você se sinta exatamente assim. Ou você entrega a "dancinha" ou não vai receber os aplausos do que o sistema quer que você entregue. E o pior: ninguém precisou te obrigar a nada, você se cobra sozinho.

Me pergunto se no seu momento de apaixonamento pelo que hoje você me diz te frustrar, havia referências e conteúdos incríveis (clássicos ou contemporâneos)... Porque o mundo produz em excesso já há algum tempo. Contudo, ao ver algo incrível no "antes" te causava o mesmo que o agora?

Tal qual você, sou apaixonado por fotografia, audiovisual, registros simbólicos... mas, de tanto ter a obrigação de ver e produzir coisas que, nem sempre tinha liberdade estética ou o devido reconhecimento pelo valor de cuidado do que era produzido, o tesão morreu!

O prazer sobrevive ao excesso? Ou ele se sufoca e morre?

Com sorte e sem pressão, em meu novo ritmo de vida, reencontrei velhos eus com seus desejos intactos, guardados numa caixa longe do "faça por dinheiro". Qual a última vez que clicou porque achou bonito, ou porque quer uma memória do corpo que um dia ficará diferente, ausente? Tem tido tempo de rever aquilo que ficou registrado da sua última viagem? Aliás, tem viajado (fisicamente) ou mentalmente de modo que não seja para produzir?

E fiquei na dúvida: você não registra ou não posta? Escrever é uma coisa. Publicar é outra.
Eu publico para me ver livre das minhas loucuras! Só às vezes gosto. Você publica pelo quê?

Você me falou aqui de coisas do campo do público, mas você broxou em si mesmo? Temos fotos no seu celular, câmera digital ou analógica do que te provoca tesão aos olhos, ou pela frustração, os cliques cessaram? Temos espaço para uma nova versão aí?

Me chama para um café com vinho!?

Ler esta e as outras na íntegra →

Você me mandou

“Quase nunca me lembro de registar esses episódios, e logo em seguida, caio na reflexão de: se não registrei, será que vivi isso? Se eu não me recordar, será como se nunca tivesse acontecido?”

Eu respondo

veja o que te cabe... a vida não cabe em uma tela, mas você já parou para olhar fotos da sua infância?

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →

Você me mandou

“Não sei se vai me ajudar ou se vai me deixar mais maluquinha, mas comprei O Mito de Sisifo, de Albert Camus para ler. Diz ele que é preciso imaginar Sisifo feliz e eu quero entender como.”

Eu respondo

Eu explico o como do seu Sísifo por aí: a felicidade só em raros momentos de distração. Sísifo feliz talvez seja Sísifo distraído da pedra.

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →
04Convergências

O velho que a IA compra, a escola proíbe

Polo A

laboratórios de IA passaram a comprar livros impressos em lote porque texto anterior a 2022 é, no material de venda de um fornecedor, garantidamente livre de contaminação por IA. A Anthropic contratou um ex-Google Books e digitalizou cortando a lombada. (404 Media)

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Polo B

a norma acadêmica corrente exige fontes dos últimos cinco anos. A APA, autoridade invocada para justificar a regra, desmente: nas suas diretrizes o critério é um só, se a fonte influenciou o trabalho, tenha ela cinco ou cinquenta anos. (APA Style)

No mesmo mês, a máquina e a universidade adotaram regimes invertidos de validade do tempo. A IA foi obrigada a concluir que o texto antigo é o mais confiável, porque é o único que ela não escreveu. A academia, no mesmo gesto, passou a tratar o antigo como suspeito por definição. Os dois medem a idade de um saber e chegam a respostas opostas.

A ironia se afia no detalhe. A IA persegue o livro velho por motivo higiênico: o que ela procura no passado é a ausência de si mesma. Sabedoria é o que menos pesa nessa compra. E o campo com a queda mais forte na idade das citações é justamente o de processamento de linguagem natural, quem constrói esses modelos. Enquanto paga caro pelo texto humano de antes, a mesma indústria vende o tempo humano de agora: os anúncios chegaram ao ChatGPT no Brasil, e a atenção do usuário virou vitrine. Nove dias depois de a reportagem sair, o fornecedor apagou a página e jurou que nunca vendeu um livro.

05Inteligência Natural · verbete

de cor.

locução adverbial

Saber de cor mora no peito antes de morar na cabeça. Vem do latim de corde, do coração, de quando a memória ainda era coisa do órgão que bate. Em português, decorar guarda os dois sentidos dessa raiz: enfeitar o lado de fora e gravar por dentro. Decoramos a casa e decoramos um poema com a mesma palavra, e quase nunca reparamos.

A IA não faz nenhum dos dois. Falta a ela estética própria para enfeitar e coração para inscrever. Ela recupera: puxa o dado do arquivo sem que ele atravesse ninguém. O que se sabe de cor tem endereço no corpo, uma voz que ensinou, uma cozinha, um medo.

› "Sei de cor o jeito que meu pai assobiava chamando pra dentro."

06Imagem da semana

Parabéns para você...

 
Quem nunca tatuou durante uma festa, que atire a primeira pedra...

Mostra · Alguém com coragem e dinheiro para tatuar.

Esconde · Que a aniversariante prometeu fazer uma tatuagem por pessoa que também fizesse... (mas dizem que ela não cumpriu).

Diz sem dizer · Que havia uma promoção de 4 flashs por R$250, preço e ocasião perfeitas para algo diferente na semana...

07Catadotrês links que valeram o tempo
7' ensaio

The Marginalian

O maior arrependimento de Darwin

Perto do fim, Darwin percebe que virou um moedor de fatos e perdeu o gosto por poesia e música. Vale porque nomeia, um século antes da IA, o preço de otimizar a mente até secar o que nela sentia.

12' especial

Quatro Cinco Um

Orides Fontela sai da margem: a poeta que a Flip 2026 homenageou

Uma poeta décadas ilegível ao grande público vira homenageada da Flip. Vale porque decidir o que é velho demais para ler é decidir o que some, mais ainda quando a voz apagada é de mulher.

20' ensaio

The Marginalian

A morte como meta: Jung sobre imortalidade e o renascer da meia-idade

Jung lê a morte como meta, e a virada da vida como fim simbólico do eu produtivo para renascer mais inteiro. Contraponto exato de Darwin: um lamenta a máquina, o outro celebra desligá-la.

08Cartografia da próxima semana
03 segunda · agosto

Congresso volta, a 6x1 na fila

O plenário retoma os trabalhos depois do recesso com a PEC da escala 6x1 entre as prioridades. A votação pode sair já nesta semana, e vale acompanhar ao vivo.

06 quinta · agosto

A leva de estreias de agosto

A primeira leva de estreias de agosto chega aos cinemas, com títulos girando em torno de memória, identidade e tecnologia, em conversa direta com o fio desta edição.

09 domingo · agosto

Segundo domingo de agosto, e o comércio já faz as contas do afeto. Fica o suspiro por baixo do balcão: o que a gente guarda de um pai não cabe em presente nem em planilha.

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Quem escreve & cura

Jota

Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO!

contato@ocamino.cc  ·  oCamino · Vitória, ES

Esta edição foi escrita do sofá da sala, em silêncio absoluto, sentindo o vento de inverno entrar pela varanda. Boa segunda.

oCamino

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