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"Minha mente parece ter virado uma espécie de máquina de moer leis gerais a partir de grandes coleções de fatos."Charles Darwin · Autobiografia (1887)
| 01 | Carta de domingo |
"Quem está de partida arruma a mala de um desconhecido"
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| Vista de onde concluo minha carta neste domingo, sentado no sofá em completo silêncio. |
Amo muitas coisas e, de tempos em tempos, amo obsessivamente maratonar podcasts enquanto malho. Marcela Ceribelli, com toda sua genialidade do Bom dia Obvious, logo que lançado o livro "Eu só existo no olhar do outro", recebeu os autores Ana Suy e Christian Dunker. Começo te dizendo isso para te descrever de onde tirei a frase título do texto, mas também para te indicar esse episódio (que de tão bom, virou dois) e que pode te ajudar (MUITO) a entender suas relações e também a si.
O fragmento é parte do poema "Fazer as malas é tarefa impossível", de Ana Martins Marques, do livro "Risque esta palavra", um dos textos comentados na conversa e que, ao ler a versão completa, me tirou o chão (ou me levou ao céu).
Sinto vontade de explodir quando encontro alguém com tamanha capacidade de emaranhar tanta vida, sentimentos, imagens, conceitos em encadeamento de palavras bonitas que nos fazem sentir e compreender algo como quem bebe água gelada em dias de calor escaldante.
"Quem está de partida arruma a mala de um desconhecido" é o resumo daquilo que vivo inspirado a ser: um viajante rumo a um desconhecido em mim, que por sua vez, assume a vida inédita do que fui até aqui.
Nessa viagem, aquele que me torno amanhã não lidará da mesma forma com muito daquilo que já passou: um desafeto, pode se acalmar, então o ódio virar perdão. O amor virar decepção. A preocupação virar apatia.
Aquele que deixo de ser, morre, abrindo espaço a esse estranho conhecido, que chega mudando coisas de lugar. Tirando a poeira dos móveis. Jogando fora certezas que por uma vida inteira (ou não) estiveram ali.
Alguns desses movimentos (para não dizer todos), doem. Outros provocam um alívio de colocar asas nos pés. Ambos, sem dúvidas, algum prazer.
Mas gosto!
Eu gosto de fazer as malas. Gosto de me desfazer de roupas que não me cabem mais.
Gosto de me descobrir burro, vazio, superficial, ignorante no ontem (ainda que me aflija sempre reler o texto da semana passada ou o último relatório final para o cliente).
Gosto porque até hoje, convidar novas versões de mim para entrar, me mostrou que o mundo é infinitamente maior do que o lugar que eu ocupava antes de abrir essa porta. Geograficamente antes de pisar em um novo país ou continente. Ou num hobby ou curso que me provoca a deixar para trás muitos modos de existir que já não fazem mais sentido.
O fato é que fazer as malas dá trabalho. Não fazê-las, mais ainda.
Vejo amigos e conhecidos reclamarem uma "vida inteira" de versões de si que lhes doem, mas ainda assim sustentam: o excesso de cuidado com os outros ("se eu não fizer, ninguém faz"), o medo de desagradar, a paralisia pelo medo...
Como bom amigo, escutar e acolher é parte do combinado da relação. Mas a torcida é, para que um dia, em terapia ou ao acaso no café da manhã, a conclusão chegue para eles, sobre eles: "levou tanto tempo para que eu me acostumasse ou amasse essa versão de mim. Estou com medo de que as velhas roupas não caibam no novo eu e, com isso, eu precise me desfazer de mim, de pessoas que gostam de mim com essas roupas e, com isso, corra o risco de ficar só. Em desamparo."
Porque no fim, não acho que o medo escondido em nossas repetições seja da solidão. Todo mundo corre, ou empaca, por medo do desamparo. Sem saber que a fuga é, quase sempre, esforço inútil (ainda que ela realize desejos).
Se o desconhecido que você vai ser chegasse hoje, o que ele jogaria fora primeiro?
Você sustenta o vazio que se abre ali?
| 02 | Incômodo da semana |
O preço dos racismos nossos de cada dia...
Segunda-feira, saio da aula de Tênis, passo no shopping para comprar um item novo. O vendedor vai ao estoque consultar a disponibilidade na cor que eu gostaria e eis que de repente, não mais que de repente a senhora "distraída":
"Quanto custa essa bola?"
Ignoro
"Ei, psiu... quanto custa essa bola?"
Respiro fundo, subo o olhar, dos pés à cabeça: eu não trabalho aqui... (com claro tom de ironia e desaprovação).
"Ah, mil desculpas... (com algum notável constrangimento)"
Ou seja, se nem o fato de eu estar no celular, distraído (diferente de alguém que trabalha na loja), em um look de academia (diferente dos uniformes dos demais atendentes), calçando um tênis de R$1500, uma bermuda de R$600, uma camisa de R$300, foi suficiente para impedir uma cena como essa (continhas só para eliminar a lógica argumentativa de "talvez você estivesse vestido de forma inadequada"), caro leitor, o que mais poderia ter feito com que ela não me confundisse com um trabalhador (digno) da loja?
Se somarmos um telefone de 10 mil e um relógio de 2, com quase vinte mil no corpo, eu ainda seria confundido. Só uma coisa teria mudado a cena, e não está à venda e tampouco eu compraria: mudar a cor da minha pele.
| 03 | oCamino para fugir do fim do mundo |
A consultoria que ensina IA responsável esqueceu de ler o próprio relatório
Há um tipo de erro que só aparece quando alguém confere a fonte, e quase ninguém confere. A GPTZero conferiu e achou alucinações de IA em quatro relatórios de thought leadership da PwC no Oriente Médio: estatística fabricada, nota de rodapé falsa, atribuição trocada. Um deles garante que 70% dos CEOs da região esperam que a IA generativa refaça seus negócios, e cita uma pesquisa que não existe. Em outra nota ficou pendurada uma URL com a tag utm_source=chatgpt.com, a digital de quem gerou o texto e esqueceu de apagar. A reportagem do The Next Web mostra que a lista não para ali.
As quatro grandes entraram nela. A KPMG retratou um relatório com afirmações falsas sobre UBS, NHS e Transport for London. A EY retirou um estudo com notas inventadas. A Deloitte inseriu fabricações em documentos de governo duas vezes, uma delas num plano de saúde de 1,6 milhão de dólares no Canadá que citava artigos inexistentes.
Do lado de quem constrói, a promessa é limpa: a IA acelera, resume, devolve o consultor caro ao trabalho de pensar. O mercado corre nessa direção com fé, e aprende a vender a própria pressa como se fosse método.
Do lado de quem paga a conta, essa mesma pressa terceiriza a autoridade. Quando a marca que vende consultoria em IA responsável assina um relatório que a própria IA escreveu no susto, o que estava à venda parou de ser o método e passou a ser só a assinatura. A máquina de moer de Darwin trabalhou a noite inteira. Faltou alguém com gosto pela fonte para reler de manhã.
Com isso dito, deixa titio te perguntar: o que você entregou semana passada que não conseguiria provar, com a fonte na mão, se alguém pedisse?
Me manda algo que podemos dar nome juntos!Tem algo te atravessando esta semana e você não sabe onde colocar? Manda pra mim, de forma anônima. Leio tudo e devolvo, no domingo seguinte.
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Li, senti e tentei responder aqui...Toda semana, escolho uma mensagem que vocês me enviaram e respondo por aqui.
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| 04 | Convergências |
O velho que a IA compra, a escola proíbe
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Polo A laboratórios de IA passaram a comprar livros impressos em lote porque texto anterior a 2022 é, no material de venda de um fornecedor, garantidamente livre de contaminação por IA. A Anthropic contratou um ex-Google Books e digitalizou cortando a lombada. (404 Media) |
Polo B a norma acadêmica corrente exige fontes dos últimos cinco anos. A APA, autoridade invocada para justificar a regra, desmente: nas suas diretrizes o critério é um só, se a fonte influenciou o trabalho, tenha ela cinco ou cinquenta anos. (APA Style) |
No mesmo mês, a máquina e a universidade adotaram regimes invertidos de validade do tempo. A IA foi obrigada a concluir que o texto antigo é o mais confiável, porque é o único que ela não escreveu. A academia, no mesmo gesto, passou a tratar o antigo como suspeito por definição. Os dois medem a idade de um saber e chegam a respostas opostas.
A ironia se afia no detalhe. A IA persegue o livro velho por motivo higiênico: o que ela procura no passado é a ausência de si mesma. Sabedoria é o que menos pesa nessa compra. E o campo com a queda mais forte na idade das citações é justamente o de processamento de linguagem natural, quem constrói esses modelos. Enquanto paga caro pelo texto humano de antes, a mesma indústria vende o tempo humano de agora: os anúncios chegaram ao ChatGPT no Brasil, e a atenção do usuário virou vitrine. Nove dias depois de a reportagem sair, o fornecedor apagou a página e jurou que nunca vendeu um livro.
| 05 | Inteligência Natural · verbete |
de cor.
locução adverbial
Saber de cor mora no peito antes de morar na cabeça. Vem do latim de corde, do coração, de quando a memória ainda era coisa do órgão que bate. Em português, decorar guarda os dois sentidos dessa raiz: enfeitar o lado de fora e gravar por dentro. Decoramos a casa e decoramos um poema com a mesma palavra, e quase nunca reparamos.
A IA não faz nenhum dos dois. Falta a ela estética própria para enfeitar e coração para inscrever. Ela recupera: puxa o dado do arquivo sem que ele atravesse ninguém. O que se sabe de cor tem endereço no corpo, uma voz que ensinou, uma cozinha, um medo.
› "Sei de cor o jeito que meu pai assobiava chamando pra dentro."
| 06 | Imagem da semana |
Parabéns para você...
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| Quem nunca tatuou durante uma festa, que atire a primeira pedra... |
Mostra · Alguém com coragem e dinheiro para tatuar.
Esconde · Que a aniversariante prometeu fazer uma tatuagem por pessoa que também fizesse... (mas dizem que ela não cumpriu).
Diz sem dizer · Que havia uma promoção de 4 flashs por R$250, preço e ocasião perfeitas para algo diferente na semana...
| 07 | Catadotrês links que valeram o tempo |
| 7' ensaio |
The Marginalian O maior arrependimento de DarwinPerto do fim, Darwin percebe que virou um moedor de fatos e perdeu o gosto por poesia e música. Vale porque nomeia, um século antes da IA, o preço de otimizar a mente até secar o que nela sentia. |
| 12' especial |
Quatro Cinco Um Orides Fontela sai da margem: a poeta que a Flip 2026 homenageouUma poeta décadas ilegível ao grande público vira homenageada da Flip. Vale porque decidir o que é velho demais para ler é decidir o que some, mais ainda quando a voz apagada é de mulher. |
| 20' ensaio |
The Marginalian A morte como meta: Jung sobre imortalidade e o renascer da meia-idadeJung lê a morte como meta, e a virada da vida como fim simbólico do eu produtivo para renascer mais inteiro. Contraponto exato de Darwin: um lamenta a máquina, o outro celebra desligá-la. |
| 08 | Cartografia da próxima semana |
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03 segunda · agosto
Congresso volta, a 6x1 na filaO plenário retoma os trabalhos depois do recesso com a PEC da escala 6x1 entre as prioridades. A votação pode sair já nesta semana, e vale acompanhar ao vivo. |
06 quinta · agosto
A leva de estreias de agostoA primeira leva de estreias de agosto chega aos cinemas, com títulos girando em torno de memória, identidade e tecnologia, em conversa direta com o fio desta edição. |
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09 domingo · agosto
Segundo domingo de agosto, e o comércio já faz as contas do afeto. Fica o suspiro por baixo do balcão: o que a gente guarda de um pai não cabe em presente nem em planilha. |
Pergunta da semana
O que você guarda de cor, que nenhuma inteligência artificial vai saber que existe?
| Responder em uma frase → |
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O que vocês responderam na semana passada
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Quem escreve & cura Jota Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO! contato@ocamino.cc · oCamino · Vitória, ES |
Esta edição foi escrita do sofá da sala, em silêncio absoluto, sentindo o vento de inverno entrar pela varanda. Boa segunda.


