oCamino
edição 007 · carta de domingo30 de agosto de 2026

O risco de ficar cego pelo próprio sucesso

Uma ligação de dois minutos da minha mãe cancelou um curso em Portugal. Na mesma semana, três presidentes rivais suspenderam a disputa por um homem só e um vendedor me chamou no WhatsApp para eu abrir mão dos meus direitos.

01Carta de domingo

O risco da cegueira ao sucesso!

Vista do hotel em junho, no Porto / Portugal

Os sessenta anos da sua mãe ou uma de 25 vagas para um Programa Internacional na Europa, conquistada dentre milhares de pessoas?

Os privilegiados também sofrem?

Claro que essa é uma pergunta sarcástica, no tom daquelas que amo fazer somente a mim mesmo ou a amigos e pessoas próximas (ainda que mentalmente quase sempre eu as esteja fazendo enquanto interajo com quase todo ser vivo).

A resposta seria a de que todos sofremos...
Por causas distintas, em maior ou menor grau, algo sempre falta a alguém, mesmo àqueles que aparentam (ou acreditam) ter tudo.
Hoje, compartilho algo da falta, do alto dos meus privilégios conquistados...

Desde julho, me inscrevi em um processo seletivo para um Programa Executivo para C-Level realizado pelo Porto Tech Hub e pela Católica Porto Business School, em Portugal. O contexto? Um programa que discute exatamente o que estudo: como organizações crescem com tecnologia, dados e IA sem atropelar o humano.

Além do acesso, uma bolsa em euros para realizá-lo durante 3 sábados seguidos.

Acontece que, apesar disso, o "Jota de julho" não tinha se dado conta de um fator simples: o primeiro dos encontros cairia exatamente no dia do aniversário de 60 anos daquela que lhe ensinou a percorrer a vida!

Houve muitos anos em que, por motivos menores, deixei de estar com minha mãe no dia do seu aniversário. Uma palestra, um projeto em campo, um outro compromisso profissional...

Acontece que, dessa vez, o peso do número redondo bateu diferente.
Ainda que possa ter parecido uma decisão simples a se tomar, havia um conflito real entre um espaço que me deu nome, compreendeu, acolheu e me desenvolveu até aqui e outro que discutirá em profundidade exatamente aquilo que venho estudando e refletindo sobre o futuro.

Ainda que eu insista, minha mãe raramente me liga sob a justificativa de "você é sempre tão ocupado, meu filho"... mesmo eu a chantageando emocionalmente dizendo "você esqueceu que tem filho" ou explicando que hoje a minha rotina é de um quase burguês safado que se dedica aos estudos, projetos e revoluções que ama, acredita, mas que já não ocupam mais toda a vida, como em outro momento já aconteceu.

Fiz essa intro porque na sexta à tarde ela me ligou... numa ligação apressada, apenas para saber como eu estava e para contar que a empresa de internet havia mexido no cabeamento da rua e que, por isso, estava sem rede wi-fi em casa. Ela não queria minha ajuda, só estava contando uma história banal, de um dia banal, de uma rotina banal...

No meio da ligação, sabe quando você escuta um clique e ouve um zumbido alto (como efeito de filmes)? Esqueci completamente de tudo ao meu redor, fechei os olhos, e me vi profundamente preso a outro futuro: aquele em que aquela ligação não poderia mais acontecer.

Em que aquela vozinha carregada de simplicidade, sotaque e amor não poderia mais ser escutada "ao vivo".

Ali, ao me dar conta de algo (óbvio, mas nem sempre visível), uma decisão terminou de acontecer: ela não vai completar 60 anos novamente.

Graças à criação que recebi, ao conhecimento que me foi estimulado por ela, pelo trabalho árduo ao qual sempre recebi apoio, o programa (caso não pudesse ser realizado em outra edição) ficaria como uma nova conta na tabela de desenvolvimento profissional ou aquela parte que faltou (mas que a gente dá conta de ressignificar).

Minha mãe dedicou uma vida inteira a cuidar das pessoas ao seu redor.
Esse é um dos primeiros aniversários em que está "emancipada": do pai acamado, dos filhos criados, do marido nem sempre companheiro, dos irmãos (quase filhos) com suas vidas construídas...
Ela merece um momento mágico com suas pessoas em seu dia universal!

Que sorte a minha: que o programa topou a mudança de turma, mas, sobretudo, que pude escolher aquilo que conta a história de quem sou e não me deixará deixar de ser, nas memórias do ontem, nas atitudes do hoje ou nos reflexos do amanhã.

Cuidado com suas escolhas, babies!
O sucesso é um significante polissêmico, podendo te levar ao oposto dele!

02Imagem da semana

A burguesia não é elite!

 
Mercedes estacionada em faixa reservada para pessoa com deficiência.
Carro de luxo, atitude de quê?

Mostra · Uma Mercedes de mais de meio milhão de reais estacionada, inteira e confortável, sobre o símbolo da vaga de acessibilidade de um shopping da nossa Ilha Capital.

Esconde · Um dia chuvoso em que TODAS as vagas de acessibilidade estavam ocupadas por veículos sem o cartão de identificação. E esconde também a pessoa que precisava realmente da vaga e não aparece na foto justamente porque não conseguiu estacionar.

Diz sem dizer · Que dinheiro compra o carro, mas não compra a grandeza, a educação... Elite conforme dicionário seria quem puxa o padrão para cima; quem estaciona sobre o direito dos outros só paga caro para ficar pequeno, desprezível. A placa do carro diz "TOP", o meme pronto!

03Incômodo da semana

O famoso "jeitinho brasileiro", que tenta sempre um caminho de aproveitamento ou de desvio do que é o correto a se fazer.

Compramos um carregador de veículo elétrico que, depois de instalado, apresentou problema.

Ao fazermos contato pelo Mercado Livre, o vendedor saiu do chat da plataforma e veio para o WhatsApp. Lá, nos orientou a desistir da reclamação e dizer que, em seguida, não queríamos mais o produto. Ao seguir o caminho sugerido, a plataforma nos alertou: desistindo da reclamação, perderíamos todos os direitos de devolução e queixa.

Ou seja: o plano era ficar só nós e o vendedor depois, sem plataforma para minimamente intermediar, sem registro, sem direito.

O jeitinho é isso: uma esperteza que só funciona quando o outro perde. E segue sendo vendido como charme nacional.

01oCamino para fugir do fim do mundo

Três rivais pararam a disputa quando uma vida entrou na conta

Companhia aérea é o retrato mais limpo de concorrência que existe. Azul, Gol e Latam disputam a mesma rota, o mesmo slot, o mesmo assento na janela, a mesma milha do mesmo passageiro. É um mercado onde ceder terreno custa caro, e a conta chega antes da última mordida no biscoitinho servido a bordo. Ninguém elogia o adversário em público sem um motivo muito forte.

Pois os presidentes das três, John Rodgerson, Celso Ferrer e Jerome Cadier, gravaram o mesmo vídeo, publicado pela Abear, pedindo que Joselito Geraldo de Souza, o Lito do canal Aviões & Músicas, seja aceito nas pesquisas clínicas da doença de Creutzfeldt-Jakob, degenerativa e rara. Ele tinha ficado de fora de dois estudos experimentais. Após o apelo (deles e de centenas de milhares de pessoas em campanha online no Instagram), o Broad Institute respondeu que vai tentar ajudar.

Nenhum dos três anunciou doação, programa ou compromisso. O que deram foi atenção: a das três marcas juntas, apontada para um homem só. Se isso é muito ou é pouco, guarda a pergunta, porque ela volta daqui a dois parágrafos.

E olha que todo mundo carrega uma disputa que trata como se fosse maior do que ela é: a marca no crachá, o time no domingo, o partido na eleição, a meta do trimestre, a discussão do grupo da família. Coisas que a gente defende com uma energia que raramente sobra para defender uma pessoa. Três executivos que tinham motivo de sobra para não dividir a mesma tela decidiram que uma vida em risco pesava mais do que a diferença entre eles. A porta abriu.

Me alegra que a porta tenha aberto. Torço, como as centenas de milhares que tomaram as redes por ele, para que o Lito entre pela porta e volte de lá com boas notícias.

E aqui volta a pergunta que ficou guardada: atenção foi muito ou foi pouco? Fica junto com a reflexão, que serve para eles e para cada um de nós na nossa escala: com grandes poderes (e grandes verbas), grandes responsabilidades.

Toda voz que descobre que abre portas descobre junto o convite de abri-las mais vezes, inclusive para quem não tem sobrenome famoso na fila.

A pergunta prática para a próxima semana: que porta a sua voz abre, e para quem você ainda não pediu?

Dois outros caminhos que achamos importantes te enviar

› Meta leva chapiscada de US$ 18 bi por viciar adolescentes em suas redes

› "Estamos nos tornando cada vez mais solitários e mais tolos": entrevista com Carmody Grey, a filósofa que disse não à Anthropic

 
Manda pra mim · anônimo

Chegou até aqui com alguma coisa entalada na semana? Manda pra mim

Tem uma caixa anônima esperando do outro lado deste link. Sem nome, sem e-mail, sem rastro, só o que você quer dizer e não tem para quem. Respondo no próximo domingo, em uma frase, na seção Comentei pra você.

Mandar agora →
 
Comentei pra você · devolutiva

Li, senti e tentei responder aqui...

Fiquei tão feliz e empolgado com o nível de entrega de vocês à caixinha, que essa semana não consegui escolher e respondi todas que chegaram na última edição.

Você me mandou

“Is Everyone Truly Doing Their Best? os limite dessa premissa”

Eu respondo

Brené Brown, pessoa leitora? Amo como vocês sobem a régua!

Bora lá: a partir da lógica subjetiva que cada um tem sobre o que é "o seu melhor", acredito que sim (cada pessoa lida com a realidade que consegue dar conta e isso, em algum nível, é lidar com o seu melhor possível).

Agora, o melhor do outro é o melhor para você? O melhor de si é o melhor para você? É o melhor para o todo? Nem sempre. Aí acho que é sobre, no meio do caminho chamado vida, descobrir quais portas se abrem e se fecham para esse "melhor" possível e desejante de cada um.

Ana Suy fala de como a realidade pode ser um alívio e, nesse contexto, pensar sobre o outro é sempre fantasioso. O mais concreto a que você chega é a forma como isso te atravessa, então eu te devolveria: o que isso tudo aqui faz com o seu melhor?

Ler esta e as outras na íntegra →

Você me mandou

“A poesia deve ser mesmo um território onde se pergunta afirmando. Sem se preocupar com a interrogação.”

Eu respondo

A beleza da poesia é poder ser?! (perguntei afirmando?)

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →

Você me mandou

“Eu preciso me distrair o tempo todo da própria vida, porque viver me é absolutamente insuportável.”

Eu respondo

Muitos pensadores clássicos dedicaram toda sua existência a dar sentido ao que sentimos sobre o intervalo entre a vida e a morte.

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →

Você me mandou

“Arrisco dizer que pescar e fotografar passam pelo aguardo, mas também pela navegação entre espaços até se alcançar o ponto certo.”

Eu respondo

É o tipo de comentário que daria um livro ou uma tarde filosófica boa, de tantas camadas.

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →

Você me mandou

“Os paparazzis da vida real em Vitória que te fotografam sem mesmo você pedir, saber ou autorizar! Desde quando uma simples caminhada na orla virou performance???”

Eu respondo

Você tem certeza que não autorizou? As letras miúdas de algum site, app ou do nosso voto, talvez digam o contrário...

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →

Você me mandou

“Esses dias, estava conversando sobre amor com meu namorado e essa conversa me gerou boas reflexões.”

Eu respondo

Eu tô até agora tentando entender onde estava a tolice em ter uma conversa profunda sobre "amor" exatamente com alguém com quem você compartilha esse…

Ele não conseguiu em uma frase, leia completo →
04Convergências

A IA que não aprendeu a aprender está ensinando adultos a parar de pensar

Polo A

O tempo de cuidado. O Pew mostrou que mais da metade dos americanos na casa dos 40 cuida ao mesmo tempo de um pai que envelhece e de um filho que ainda mora em casa. É a década da vida em que sobra responsabilidade e falta hora no dia.

×

Polo B

O tempo de pensar. A MIT Technology Review mostrou que nenhuma máquina chega perto da eficiência com que um bebê aprende a falar, e que essa mesma máquina já virou muleta de cognição para gente adulta, que entrega a ela o estilo, o raciocínio e a companhia.

O encontro dos dois é desconfortável. A geração que está segurando duas outras nos braços é a mesma a quem se oferece uma máquina que promete pensar no lugar dela. Quem cuida do pai e do filho ao mesmo tempo tem pouquíssima margem para recusar essa oferta. A máquina que não conseguiu aprender como um bebê está sendo aceita justamente por quem não tem mais tempo de aprender nada.

Byung-Chul Han descreveu em A Sociedade do Cansaço o sujeito que adoece de tanto se cobrar desempenho. Delegar o pensamento à máquina é o passo seguinte desse esgotamento, porque cansado demais para pensar, o adulto pede que pensem por ele. O ponto cego mora no meio: os neurocientistas que estudam o bebê e os clínicos que estudam a dependência ainda não sentaram na mesma mesa.

05Inteligência Natural · verbete

dopaminérgico.

adjetivo · do grego *dopa* + *érgon*, o trabalho da dopamina

Toda vez que você desbloqueia o celular sem ter decidido desbloquear, alguém já sabia que faria isso. Dopaminérgico é o que ativa o circuito de recompensa do cérebro, aquele que libera dopamina quando antecipa ou recebe um prazer. O termo saiu da neurociência clínica dos anos 1960, quando se mapearam os receptores da dopamina, e foi parar no vocabulário de quem desenha produto, dos anos 2010 para cá.

Hoje ele descreve o feed, a notificação, o loop de antecipação que segura o dedo na tela. O Núcleo usou a palavra para explicar por que certas plataformas são desenhadas para explorar esse circuito, com a lei correndo atrás. A graça amarga é que a maioria das pessoas convive com sistemas dopaminérgicos sem nunca ter ouvido a palavra, e essa invisibilidade faz parte do projeto. Saber o nome da coisa é o primeiro passo para escolher se você quer aquilo.

› "Percebi que o aplicativo era dopaminérgico no dia em que o fechei e abri de novo antes de guardar o telefone no bolso."

06Catadotrês links que valeram o tempo
8' reportagem

Núcleo Jornalismo

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

A desinformação eleitoral trocou de forma: saiu do deepfake do candidato e chegou ao eleitor sintético, que nunca existiu e mesmo assim faz campanha. A menos de seis semanas do primeiro turno, o TSE corre atrás de uma regra que não previu esse ator.

25' podcast

Núcleo Jornalismo

Estamos ficando dependentes em IA? (Papo aberto #6)

A conversa parte de um paper do Asian Journal of Psychiatry que batiza a GAID, a dependência de IA generativa. Serve para quem quer o nome clínico da coisa antes de decidir se o próprio uso já passou do ponto.

50' podcast

B9 · Braincast

A arte de fazer perguntas difíceis

Onde termina a insistência do ofício e começa a humilhação que só quer viralizar? O episódio passa por Regina Duarte, Musk e debate eleitoral para separar a pergunta que aperta da que só expõe. Aula para quem vai mediar conversa difícil neste semestre.

4' nota

Núcleo Jornalismo

A mesmice do vocabulário do Claude

Uma análise de repetição léxica mostra o quanto a máquina volta sempre às mesmas palavras. Leitura desconfortável para quem escreve com ajuda dela e ainda acha que a voz continua sendo sua.

6' obituário

Revista Continente

Yayoi Kusama, a diva das bolinhas psicodélicas, nos dá adeus

Kusama morreu aos 97 e a galeria só avisou treze dias depois. O texto refaz as bolinhas nascidas numa toalha vista aos dez anos, o trauma e a internação voluntária de quem nunca parou de pintar. Escrito de Recife sobre uma japonesa, já diz para onde o Brasil olha.

07Cartografia da próxima semana
02 quarta · setembro

Festival de Veneza

A 83ª mostra abre no Lido com "Ink", de Danny Boyle, e vai até 12. O Brasil concorre com "Retorno a Buenos Aires", de Marco Bechis, sobre quem volta para testemunhar contra os militares.

02 quarta · setembro

Oito anos do incêndio

O fogo de 2018 levou cerca de 85% de vinte milhões de peças do Museu Nacional. A reabertura parcial do Palácio de São Cristóvão já recebe visita nas salas restauradas.

04 sexta · setembro

Bienal do Livro de São Paulo

A 28ª edição abre no Anhembi com o tema Palavra e Futuro e fica até dia 13. A maior feira literária da América Latina discute justamente o que esta edição discute.

04 sexta · setembro

Histórias latino-americanas

A maior abertura do ano ocupa os cinco andares do MASP até janeiro, em cinco núcleos que vão do processo colonial às concepções indígenas de renovação.

14 segunda · setembro

Debate presidencial

O consórcio Momento da Decisão reúne os candidatos às 22h, a menos de três semanas do primeiro turno. É o debate de maior alcance já confirmado na campanha.

Jota

Quem escreve & cura

Jota

Um monte de coisas antes dos títulos: trafego a vida apaixonado por poesia, fotografia, futurismo e viagens, com mais de trinta países no passaporte e no corpo. Empresário, administrador, designer, estrategista, estudante de psicologia e Inteligência Artificial, com um monte de outras coisas e habilidades na cintura. Cada edição é um desabafo de conhecimento curado à mão. Qualquer sentimento, me responda: eu leio TUDO!

contato@ocamino.cc · oCamino · Vitória, ES